19.3.26

Quando o verão termina para os incas?

 Como sabemos que o fim chegou?

É o aviso de uma doença terminal? Quanto tempo temos?

Essa é a beleza do fim. Sua surpresa. Vêm sem aviso. "O começo do fim". Isso não existe. Só o enquanto existe.


Do tecnológico relógio solar os incas enxergavam na montanha distante picos que desciam e subiam. Pelos espaços entre os picos eles contavam o que outras civilizações chamavam de “primeiro semestre”.
Não contavam horas. Contavam sombras. Sem obstáculos, não há sombra. Sem conflito, não há história. O sol volta. A colheita volta. Os rituais voltam. O passado fica à frente e o futuro conhecido para trás. Cíclico. Ouroboros. Tenho tatuado no meu braço direito e junto com o acaso tatuado no esquerdo cria um paradoxo que sou.

Voltando aos incas, o tempo não passa, ele muda de temperatura.

E, no entanto, nada é o mesmo. Porque o retorno não é repetição. É variação. Uma espécie de eco que se modifica ao atravessar o tempo. Os incas sabiam disso. Não esperavam o “novo”. Cultuavam o “de novo”. E de repente tudo se reorganiza. Não há linha. Não há progresso. Há clima. Tem dias em que você é inverno, mesmo sob um sol violento. Há noites em que o verão retorna sem aviso, suando pelas paredes da memória.


E acabava por aí?

Não. O conceito do fim não existia. O fim não chegava, não era conhecido. E não tinha necessidade. Faziam o mesmo com seus mortos. Mumificavam, preservavam em suas casas com seus tesouros, como mantemos lembranças: acessíveis, presentes, à mão.
E eu preservando anônimos todos os dias em minhas fotografias. 


Se não há fim, então o que fazemos com essa urgência? O que chamamos de tempo é apenas a forma como suportamos o excesso de existência. O fim é uma fantasia de quem não aguenta mais continuar. E eu entendo. Eu também não aguento. Mas continuo.


Você sabe o que é pior? A sensação de que isso já aconteceu. Não como uma lembrança, mais sujo que isso. Mais íntimo. Como se o corpo soubesse antes. Como se cada gesto já estivesse gasto, usado, repetido num lugar que não conseguimos acessar.


Olho pra frente, o passado. Olho pra trás, o futuro. E fico no meio, rodando como um bêbado tentando lembrar o caminho de casa. E você. Sempre você. Aparecendo como se fosse novidade. Mas não é. Você é memória. Memória com perfume. Memória com carne. Memória que insiste em se passar por descoberta.


Se seguirmos a lógica dos incas, se realmente não há fim, então este texto não está sendo escrito agora. Ele já foi escrito. E será escrito. E está sendo lembrado. O que você lê não é presente. É passado à frente. E o que você ainda vai ler já está atrás de você, pressionando sua nuca com uma familiaridade inquietante.

Como uma conversa que não terminou, apenas mudou de temperatura. E o que estamos fazendo aqui não é diferente. Este texto não avança. Ele gira. Cada parágrafo é uma nova face exposta ao mesmo instante. Cada frase é uma tentativa de tocar algo que já está completamente dado, mas que fingimos descobrir aos poucos para não enlouquecer. A literatura sempre soube disso. A música também. Você já percebeu? Uma melodia nunca termina, ela apenas se resolve em silêncio. Mas o silêncio não é ausência. É continuação sem som. O fim de uma música é só uma recusa de escutá-la mais uma vez. 


Se o espaço e o tempo são um tecido, como dizem, então deve haver dobras. Imperfeições. Pontos onde a superfície rasga. Há uma dobra aqui. Entre esta frase

e a próxima.
Um intervalo mínimo onde a continuidade falha. E se eu atravessar? Não para o futuro. Não para o passado. Mas para fora. O risco não é cair. É desaparecer como função. Deixar de ser personagem. Deixar de ser linguagem. Deixar de ser útil. Mas talvez seja isso que sempre quis. Não o fim. Mas o fim da necessidade de continuar.


Quando o verão termina para os incas? Nunca. Ele apenas muda de temperatura. Como o amor. Como a queda. Como este texto que você jura estar avançando, mas que na verdade está apenas circulando, girando em torno de uma pergunta que não quer resposta. Porque responder seria encerrar. E encerrar seria trair. Então ficamos aqui. Você lendo. Eu sendo lido. Os incas olhando a montanha. O cientista rabiscando fórmulas. O sol nascendo e se pondo ao mesmo tempo. O amor começando e terminando e permanecendo. Ambos preservados num presente que se recusa a morrer. Como um verão que não termina. Como uma última frase que, 

mesmo depois do ponto final, 


continua.


Mas tem um detalhe que você ainda não percebeu. Você também está aqui. Cada vez que lê, deixa um pedaço. Uma interpretação torta. Um pensamento que não termina. E isso fica. Grudado. Como gordura. Como culpa.

E aí você me pergunta: como sabemos que o fim chegou? Não sabemos. Nunca soubemos. Porque não chega. Ele infiltra. Como uma ideia ruim. Como esse texto. Se nada termina, por que esconder? Se tudo continua, por que fingir ausência?


E tudo isso
este texto


esta queda


este amor mal resolvido
o amor terminando, começando, apodrecendo, voltando


não passa de um eco

quente

suado

de algo que já acabou

em algum lugar

que você não vê

porque está

exatamente

atrás

de você.



15.2.24

bye

29.8.23

Estar até não estarmos.

Às vezes é só preciso estar. Estar até não estarmos. Como uma estrela a 13 bilhões de anos de distância. Como uma estrela que vemos, contamos com o dedo e não existe mais. Estar no centro da cidade mais movimentada e cheia de um país já superlotado. Estar aglomerado com milhares de desconhecidos e desencontros únicos com Luiz Gonzaga Jr. nos meus ouvidos com as pernas no mundo. Só preciso estar. O presente e o futuro. Dias frios e dias quentes. Dias sim, noites também. Insônia. Quartos abafados quatro patas nas minhas costas. Uma caricatura de agora pausa o momento. Eh preciso estar. Estar com consciência de crise. Estar com fome de dopamina e sede de nada. Estar só. Acompanhando. Bem acompanhado. Estar off. Desligado em telas e em telas e em telas e em telinhas e em luzes azuis hipnotizantes que contam histórias inventadas de super-homens em colantes coloridos. E na real? Existe uma realidade? Imagino que não. Então narro o que vejo e sinto. Estar ao redor dos outros não centralizado na minha própria rotação sem que a agulha me alcance. Linhas tortas e riscadas. Nada reto. Sem retorno. Apenas o absoluto. E estar. Silêncio. No hay nada. A gravidade fecha meus olhos. Ser e estar num mesmo verbo. Verbo que obriga uma ação, um processo, um estado. Um estado de estar e ser. Sendo. E um vento gelado estapeia minha cara. À margem vejo cenas de Reichenbach ripadas de uma vida de videoteipe mofada e o verbo vira palavra que vira um texto que vira um roteiro que vira um filme que vira uma memória que foi que vira saudade que vira mais nada e termina aí. Continua.

19.6.23

SinfonIA do vazio

As horas passam em um ritmo indolente, arrastando-se em uma rotina tediosa que me sufoca. A vida, como um incessante e enfadonho relógio, parece ter perdido toda a sua cor e vitalidade. Sou um artista sem inspiração, incapaz de criar e transpor para o mundo minhas emoções mais profundas.

A monotonia cotidiana é um fardo pesado que carrego, corroendo lentamente minha alma inquieta. Cada dia é uma cópia pálida do anterior, como se o universo conspirasse para me manter em uma prisão de tédio insuportável. A luta pela sobrevivência se transformou em um vazio sem sentido, no qual me afogo diariamente.

No trabalho, sou um mero espectador, um autômato que realiza tarefas sem qualquer propósito. Minha mente vagueia em um mar de desinteresse, e cada segundo se arrasta como uma eternidade. Meus colegas de trabalho, com suas conversas vazias e suas preocupações mundanas, parecem habitar um universo paralelo distante do meu.

A tristeza se alojou em meu coração como um hóspede indesejado, consumindo minhas esperanças e sonhos. O prazer que antes encontrava nas coisas simples da vida se dissipou, deixando apenas uma névoa sombria em seu lugar. Não tenho mais vontade de encontrar pessoas, de sair de casa e me envolver com o mundo. Tudo o que desejo é me isolar, me perder em meu próprio abismo de melancolia.

A alienação parece ser a única resposta para minha desolação. As palavras e cores que costumavam me cativar se tornaram cinzentas e vazias. A luz que iluminava minha imaginação se apagou, deixando-me em um estado de letargia e desespero. Meu coração se recusa a bater com o entusiasmo e a paixão de outrora.

E assim, aqui estou eu, perdido em um mar de tristeza e apatia, sem um farol para me guiar de volta à costa. Anseio por uma chama que incendeie minha alma novamente, que me impulsione para além da desolação e me leve a explorar novas fronteiras da existência. Até então, permaneço cativo nesta prisão da mente, sonhando com a possibilidade de um renascimento interior, esperando que a vida me surpreenda com sua magia perdida.

11.7.22

Antes de eu recomeçar a dançar

Mesmo morto você continua a me proporcionar experiências novas. Nunca tinha chorado numa pista de dança, nem sentido saudades enquanto dançava. A escuridão alternada rapidamente com luzes brilhantes misturada à uma fumaça cheirosa que embala os corpos presentes, felizes e embriagados. E a música... ah, a música. Aquelas que penetravam nossos corpos e mentes e nos eletrizavam. Ombrinhos. Buzuzu. Memórias. Danças inacabadas. Olhos embaçados. Espelhos reais em banheiros nojentos. E agora nunca mais dançarei com você. Estalam-se os dedos e desaparecemos por completo.

A ignorância da morte é o que nos mantém sãos ao longo de nossas vidas cotidianas? Seria o oposto o que nos levaria à insanidade? Atentar-se aos sinais da brevidade da vida poderia finalmente colocar fim à ansiedade esfomeada da consciência?

Eu só vejo saída para tristeza se houver música, seja ela qual for, aquela vontade de dançar contida no seu corpo, um arrepio que toma conta do seu corpo, conto que isso poderá nos salvar.

Foi estranho voltar a dançar numa sala cheia depois de 3 anos de algo que apelidamos de "distância social". Feliz, triste, feliz de novo. Você fez e faz muita falta, isso é verdade. Mas sozinho não estou. O "apesar de tudo" que realmente conforta e se faz "tudo". Não tenho do que reclamar, fato. Alguém me conduz para fora da escuridão antes de eu recomeçar a dançar sozinho.

28.9.21

Erosão

Incapacidade. Incompetência. Inércia. Incompleto.
Sinto minha vida sem mim.
O frio no esôfago é diário.
Ele sobe pelo meu pescoço, agarra minha respiração e sufoca o que eu gostaria de fazer. Qualquer coisa. Não há moção, vontade, emoção. Não há nada neste tudo borbulhante. O frio do esôfago cristaliza-se em olhos marejados. A tristeza bate como uma onda avança numa rocha fincada nas areias do tempo.
Uma rocha como eu.
Uma rocha inerte. Desfazendo-se aos poucos pela erosão que a água traz.
Incapaz. Incompetente. Sem valia. Inerte. Incompleto. Rodeado sem saída.



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