31.12.10

Season Finale IV

Anteriormente em Season Finale

"Quando a verdade se revela mentira, toda alegria interior se vai..."


De onde vem o azar, essa má sorte, a desgraça, os acontecimentos ruins, tudo que dá errado? De onde sai toda essa onda criativa de aborrecimentos? Alguém lá em cima ditando ordens com um sadismo sem fim? Uma linha mal feita na hora que desenharam nosso destino? Ou talvez um castigo por algo errado que cometemos? Acho que não. E se fosse uma simples ação com uma derradeira consequência? Alternativa realista, menos imaginativa.

Esse ano aceitei o mistério. Ou melhor: aceitei o acaso. Não há aparente explicação para esse inferno pessoal que foi essa temporada. Entre amigos, fizemos a piada que o ano foi de "Bad Karma" porque passamos a virada na Loca, uma casa noturna flopada. Realmente, a entrada de 2010 foi triste como o restante do ano seria: dois assaltos, uma doença, mais brigas familiares, falta de dinheiro, descontentamento no trabalho, uma paixão platônica e dolorida; engordei, entrei no terceiro dígito, roupas apertadas, ônibus molhando com a água suja das guias, sopro no coração, estresse, rotina sufocante, dezenas de noites mal dormidas pelo ronco da avó, mais discórdia na família, mais sufocos financeiros, mãe desempregada, poucas drogas, ausência de amigos, solidão constante versus o aumento de preguiça com as pessoas, projetos inacabados, planos que não decolaram, tédio, violência contida...

Não há explicação. Posso começar por qualquer ponto de partida.
Em 1987, uma jovem mulher em Goiania tomou um pouco mais de vinho na companhia de seu namorado dentro de um caminhão.
O acaso é o grande senhor de todas as coisas. A necessidade só vem depois, até meu último suspiro. Mas já sabem, se algum dia eu me sentir melhor, vou precisar de alguém, alguém para amar.

To be continued...

15.11.10

Aos cuidados de



Não há nada melhor do que uma carta para você se lembrar do passado. Assim como uma figura animalesca cravada numa pedra, uma carta, marcas e rabiscos feitos em papeis eternizadas pela tinta de uma caneta simples, uma bico de pena especial ou um por um grafite que deixará as letras mais fracas depois de um tempo. Como um louco pelo passado e por deixar marcas, amo as cartas. Principalmente em tempos distantes em que vivemos. A ideia de alguém te deixar algo como uma despedida, a descrição de um dia e até um “feliz natal” me gratifica muito. Alguém pensou em você e esse pensamento ficou registrado num pedaço de papel.

Reencontrei algumas cartas hoje. De pessoas que significaram muito para mim e que não vejo mais e quando leio nem consigo me lembrar de suas vozes. Saudade é uma das poucas coisas que eu sinto: pessoas, lugares, momentos... até das coisas que não vi e não fiz.

Os pedaços de papéis amarelados me fizeram lembrar das pessoas especiais com quem vivi por um tempo e como sinto falta de tudo aquilo. Tento pensar que estou melhor hoje, mas não. Nem melhor, nem pior. Continuo o mesmo. Sinto falta de alguém para conversar. Alguém que realmente me conheça. E são só três pessoas.Todas estão longe e não convivo mais com elas faz um bom tempo. Acho que é isso que é ser sozinho: estar cercado de pessoas, mas nenhuma delas te conhece.

28.7.10

Amores dos Outros


A sensação de superar conceitos e revê-los me agrada muito, sempre que a nova visão for positiva. Assim como uma surpresa boa. Numa mesa de bar, como uma frase esperta e banal escrita num guardanapo, superei meu incômodo pelo amor dos outros. Não era inveja nem algo parecido. Mas pela visão amarga, sistemática e egoísta que eu tenho do amor (e da vida), achava que como eu não sentia ninguém deveria sentir. E assim, desdenhava de sonhos com príncipes encantados, juras de amor eterno e até o brilho embriagado e abobalhado dos olhos de um apaixonado.

Não é porque você não quer amar que os outros não podem amar. Aceitei o amor que os outros sentem, mesmo não acreditando nele. Assim como respeito a religião das multidões fervorosas de fiéis, mesmo não tendo fé em nada.

Não mais debocho das ilusões e desejos que os outros sentem, agora curto tudo como se estivesse ouvindo uma música bobinha sobre o amor.

12.7.10

Uma adaptação séria



Durante a madrugada o cheiro de merda tomava o quarto. Sabia que ela estava dormindo pelos roncos. Virava de um lado para o outro respirando pela boca. Acordou com ela tentando se levantar. Com os pés na cara dele. Já estava sem as cobertas, cheiro forte, fralda carregada e lençol sujo. O despertador só ia tocar daqui a uma hora. Quando a semana começa marrom é porque a coisa vai ficar preta. Chamou a mãe para ajudar a avó. Enquanto arrumava o banheiro, fazia companhia para evitar que saísse da cama e espalhasse a sujeira pela casa.
Aos poucos ela saia da cama rumo ao banheiro para o banho. A mãe com muita ânsia de vomito e ele pondo os lençóis no lixo. Sentou no computador para ouvir música e tentar animar a manhã. Não estava irritado nem nada. Já estava acostumado. Só gostava de ouvir música pela manhã. Depois do banho a avó estava sentada do lado dele numa poltrona. Ela chamou e disse algo incompreensível. Levantou para ajudá-la e mais uma vez disse algo que ele não entendeu levando a mão para as partes intimas. Perguntou se ela queria ir ao banheiro e ela disse que sim. Mal foi para o corredor e mais sujeira no chão. Vazava pelas calças. Imaginou a reação da mãe, nervosa, irritada, gritando e xingando muito. Mas não, pela primeira vez não fez isso. Parecia acostumada também. Só achava a situação triste. E era mesmo. Assim como desesperadora.
Depois de outro banho na velha, foi a vez dele de usar o banheiro. Costuma ter as melhores idéias ali. Seja no trono ou no chuveiro. Lembrou deu uma não tão boa. Ontem indo dormir, pensou em relatar um dia da sua vida e fez uma promessa para si mesmo que ia ser no dia seguinte. Repensou na decisão. Seria hoje um bom dia? O dia começou interessante. Não bom, mas tinha um começo.
No quarto, antes de se trocar, pegou no armário seu caderno de anotações e começou a escrever sobre o dia de hoje. Terminou meia página quando percebeu que ia se atrasar para o trabalho. Pensou uma vez antes de tomar o café preto porque seu estomago não estava tão bem, mas tomou mesmo assim. Precisava ficar mais desperto. Aplicou insulina na avó, deu um beijo e saiu. Preparou os fones e acertou o mp3. Na primeira parada do ônibus enquanto esperava a baldeação, resolveu escrever mais um pouco. Sacou da mochila o caderno e começou, bem ali na Rio Branco.
Alguns observavam, nem ligou.
No caminho para o trabalho, uma música francesa bem alegre animou a ida. Chegando no escritório resolveu se calar. Não tinha muita coisa pra fazer e não queria muito papo com ninguém. Só queria enrolar e matar a segunda-feira. O que tinha pressentido se tornou realidade. Estava de saco cheio do ambiente de trabalho. As pessoas com seus discursos repetitivos, seus dramas exagerados, as mesmas reclamações vagas e os inconformações de sempre. Foi a primeira vez que não suportou estar lá. Passou todo o expediente com os fones de ouvido e se entediando pela vida dos outros e da sua também. A copeira até questionou o silêncio dele perguntando por que estava calado e não estava reclamando como de costume. Se reclamo, logo existe. Ao pesquisar uma frase para homenagear a morte de Harvey Pekar, se deparou com uma perfeita para o dia de hoje: “Faz você se sentir bem sabendo que há outras pessoas aflitas como você”. Precisa dizer mais?
No almoço, silêncios chatos e sol forte na cara. Precisava de um boné. Voltando para casa, o mesmo caminho rotineiro, o chiclete mascado jogado fora, o beijinho na vovó, a jantinha e etc. Tirou a jeans desconfortável e por um segundo pensou que não tinha roupa para amanhã e logo fez que nem aí. Esperou todos dormirem, sentou no computador, pegou o caderno, digitou todo o texto e publicou em seu blog enquanto ainda não estava escuro.

1.6.10

Acaso #1



Quando se vive sem grandes expectativas, você vive do acaso. "Expectativas só geram decepções". Aceitar o acaso e simplesmente viver, muitas vezes é tedioso, acaba por se levar uma vida amarga, ter visões pessimistas... Vivo como se estivesse bêbado dentro de um tumulto sem colisões.

A partir do acaso, a minha imaginação de liberdade. A partir de escolhas, escolhi a opção de não querer amar, não se apaixonar (evitar), não se envolver com ninguém. Sim, escolhas são perdas e acho que acabo por não perder grande coisa, como não tenho fé no amor. Se o amor existe, gosto das paixões acidentas. Amor ao acaso. O amor não idealizado.

17.4.10

Jigsaw Puzzle


Quanta gente passando. Pra lá e pra cá. Elas não param. E aquelas lá em cima dentro daquele avião que ta pousando? De onde será que elas estão chegando? E essas dentro do ônibus. Cansadas. Sete e meia. Indo pra casa, escola, trabalho. Meu ônibus não chega. Vista cansada. To sentindo o mesmo peso e incômodo nas costas de antes. E não é a mochila. E essa menina? Com quem será que está falando no celular? Parece que é com uma amiga. Essas pessoas não param... Vista cansada. Queria estar num quarto escuro como um fechar de olhos. Fecho um pouco. Barulho da rua com o do meu fone. Abro os olhos. Essa luz laranja de rua. Como amo esse laranja. Queria que tocasse Stones no meu mp3. Jig-saw Puzzle. Mmmm. Jig-saw Puzzle... Jig... Saw... Puzzle. Minha música do momento. Derreto com ela. Queria fumar um beck e ouvir Jig-saw Puzzle. Sei que é um clichê, mas é um clichê muito bom. Adoro fumar um e ouvir um som. Jig-saw Puzzle. Era tudo que eu queria de aniversário se me perguntassem. É a conexão definitiva com música. Da mente depravada de Jagger e Richards, da melodia melancólica ainda que inquieta, da historinha contada, muito pessoal e até despretensiosa, da gravação, da voz, seu timbre, seu ritmo, dos anos que se passaram até meus ouvidos, meu cérebro. A freqüência perfeita. Jigsaw Puzzle. Nunca esperei tão pacientemente pelo meu ônibus, deitado aqui no chão.

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