10.3.11

Quaresma

Muita correria, hard working songs (Jump, da Madonna), siricutico, formigas na cadeira. Acho que não estou produzindo bem na agência. Lá estou no piloto automático, só pensando no lado de fora. Vontade de bater perna, fone sempre no ouvido, músicas sempre altas, pensando no próximo shuffle enquanto respiro coisa nova.

Pesadelos à noite. Hoje de madrugada acordei assustado e vi vultos em cima de mim. Enfiei a cabeça debaixo das cobertas bem depressa. Só queria voltar a dormir. Mas me deparava com o mesmo sonho bizarro: alguém se mutilava em pedaços até sobrar um pedacinho, depois pegava esse pedaço, escondia dentro de um radinho de pilha e passava por uma grade para outra pessoa que estava numa prisão. Lembro que quando acordei achei graça do sonho, depois me surpreendi como eu pude sonhar com algo assim e ainda achar graça. Fiquei com vergonha e depois percebi que eu era uma má pessoa por ter esses tipos de sonhos. Depois fiquei com medo porque vi os fantasmas de março.

Com certeza isso foi porque na manhã passada estava assistindo um programa matutino de entrevistas e uma religiosa que vende livros de simpatia dizia que esse período de quarta-feira de cinzas, quaresma, é um período em que as portas do inferno se abrem e todos os mortos perambulam pelo mundo. Fiquei ouvindo atentamente o discurso da mulher, que tinha um sorriso macabro e uma fala convicta. Dei de ombros com o assunto, mas acho que ficou na minha cabeça. Lembro muito bem de uma frase dela sobre acender velas nesse período: “eles (os espíritos) estão atrás de qualquer luz”.

25.2.11

Body Electric II

O que me cura, o que me adoece, o que me falta, o que me mata, o que me ataca, o que me repele, o que me excita, o que me deseja, o que me atrai, o que me afasta, o que me sufoca, o que me dói, o que me grita, o que me persegue, o que me abre, o que me fecha, o que me hipnotiza, o que me ama, o que me odeia, o que me emudece, o que me salva, o que me atiça, o que me eleva, o que me rebaixa, o que me esquenta é a mesma coisa que me esfria. Seus carinhos através de seus olhares.

21.2.11

Body Electric


Recebo seus carinhos com incertezas. Devo retribuir? Está carente? Gosta de mim? Mil dúvidas invadem minha mente, dúvidas ativadas na fricção de seus dedos macios. Fico inerte apesar do corpo elétrico. Estas a afagar um morto apesar de minha face estar levemente corada. Por que suas mãos quentes não conseguem aquecer minhas mãos tão frias há muito tão vazias? Sentimentos a flor da pela exalam, provocam e hipnotizam. Mas minha força é signo falso. Acovardado eu recuo para dentro da caverna inabitável. “E se o corpo não basta completamente tanto quanto a alma?” Ainda não sei se sou miserável por ser sozinho ou se sou sozinho por ser miserável... Não me conheço nada... Chego mais perto e vejo a silhueta de um monstro silencioso.

12.2.11

A Ilusão Viaja Comigo



As pessoas me questionam por que eu não dirijo. Por que dentro de uma grande metrópole, o que seria prático, seguro e conveniente eu não tenho um carro? Simplesmente digo que não tenho vontade de dirigir. Minto. Eles duvidam e logo começam a contar de como eles também já tiveram medo da direção e como conseguiram superar. Os falsos modestos até dizem que se eles que são eles conseguiram, por que eu que sou eu não conseguiria? Dou um riso sem graça. O medo não tenho. Motivos financeiros talvez me impeçam de ter um carro e até uma motocicleta, mas não me impedem de me tornar um motorista. Não dou essa resposta e sigo adiante. As pessoas não entenderiam meu principal motivo. A idéia de uma rotina por qualquer que fosse sempre me perseguiu. E ter uma ferramenta que te possibilita uma falsa idéia de liberdade me faz sentir-me descontrolado. Desagrada-me usar uma máquina tão poderosa, mesmo que seja um poder forjado e ilusório, para ir de uma prisão para outra. Gostaria de pegar uma estrada, ir para lugares que nunca estive, pisar em solos novos e de sentir o que a publicidade sempre apresentou: a sensação de liberdade, um ideal mágico de cruzar fronteiras na garupa de uma moto. A simplicidade de não estar no mesmo lugar sempre. Ir e voltar não me apetece. Quero apenas ir. Para qualquer lugar, para qualquer rua. O carro que não quero pilotar e a direção que não quero controlar apenas me distanciam da ilusão da liberdade. Mesmo com quilômetros rodados ainda estaria preso. Ainda seria eu mesmo. Sigo então a pé, com a música como amiga. Sigo então de transporte coletivo, com diversas companhias diárias. Sigo então deitado, com minhas ilusões dentro de sonhos estranhos e magníficos.

10.1.11

Sigh

A cada suspiro pesado que dava, o peso ia para as costas. Em dois anos ganhou uma corcunda.

31.12.10

Season Finale IV

Anteriormente em Season Finale

"Quando a verdade se revela mentira, toda alegria interior se vai..."


De onde vem o azar, essa má sorte, a desgraça, os acontecimentos ruins, tudo que dá errado? De onde sai toda essa onda criativa de aborrecimentos? Alguém lá em cima ditando ordens com um sadismo sem fim? Uma linha mal feita na hora que desenharam nosso destino? Ou talvez um castigo por algo errado que cometemos? Acho que não. E se fosse uma simples ação com uma derradeira consequência? Alternativa realista, menos imaginativa.

Esse ano aceitei o mistério. Ou melhor: aceitei o acaso. Não há aparente explicação para esse inferno pessoal que foi essa temporada. Entre amigos, fizemos a piada que o ano foi de "Bad Karma" porque passamos a virada na Loca, uma casa noturna flopada. Realmente, a entrada de 2010 foi triste como o restante do ano seria: dois assaltos, uma doença, mais brigas familiares, falta de dinheiro, descontentamento no trabalho, uma paixão platônica e dolorida; engordei, entrei no terceiro dígito, roupas apertadas, ônibus molhando com a água suja das guias, sopro no coração, estresse, rotina sufocante, dezenas de noites mal dormidas pelo ronco da avó, mais discórdia na família, mais sufocos financeiros, mãe desempregada, poucas drogas, ausência de amigos, solidão constante versus o aumento de preguiça com as pessoas, projetos inacabados, planos que não decolaram, tédio, violência contida...

Não há explicação. Posso começar por qualquer ponto de partida.
Em 1987, uma jovem mulher em Goiania tomou um pouco mais de vinho na companhia de seu namorado dentro de um caminhão.
O acaso é o grande senhor de todas as coisas. A necessidade só vem depois, até meu último suspiro. Mas já sabem, se algum dia eu me sentir melhor, vou precisar de alguém, alguém para amar.

To be continued...

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