4.2.14

Bafo do Diabo

Eu acredito que consigo ver o futuro. Todos os dias são exatamente parecidos. Não sei como começa, mas sei como vai terminar. Mas não hoje. Hoje foi um dia normal no inferno. O diabo acordou, perdeu alguns minutos na sua cama king size e levantou ranzinza. Trinta minutos depois de seu despertador tocar. Trinta minutos antes do que costuma levantar. Foi até sua cozinha particular e como faz há bilhões de anos, acendeu o fogo da boca do fogão para o planeta Terra ferver. Encheu os pulmões vermelhos de enxofre e deu uma baforada no planeta.

Acordei atrasado como sempre. Hoje resolvi ignorar uma pessoa que vivia em meus pensamentos constantemente. Missão cumprida. Primeira coisa que eu leio: meu horóscopo. Áries. Signo do fogo. Está muito quente. O verbete esotérico dizia para eu reservar tempo e espaço para eu me equilibrar, adiar decisões importantes e cuidar de mim. Difícil, mas não impossível. Dois segundos depois e eu já tinha esquecido da mensagem e me preocupava com o café.

Ônibus cheio, carros entupindo a rua estreita da saída do bairro. Muita gente. Encostado no vidro. Suando. Muito suor. Não fazia nem uma hora que eu estava de pé. Desço do primeiro coletivo. Vou para o terminal. A música nos meus ouvidos não deixou eu ouvir o pedinte me pedindo dinheiro. Deixei falando sozinho. Coitado. Não teve culpa de atravessar o meu caminho. Meu caminho. Como se eu fosse dono de algum caminho.

Entro no prédio e dou graças a algum deus pelo ar condicionado. As vezes acho que é por isso que eu venho trabalhar. Por causa do ar condicionado. Mentira. É pela grana mesmo. Como todos nós. Incrível como o dinheiro nos iguala nos motivos e nos separa por ele mesmo. Aposto que o diabo soltou um risinho de onde quer que ele esteja. Num lugar melhor, suponho.

Primeira notícia do dia: um cientista bem velho e bem renomado diz que o aquecimento global é inevitável e 6 bilhões morrerão. Aposto agora que o diabo se preocupou. Ou não. O inferno deve ser infinito também. A raça humana está condenada. Como se não soubéssemos disso.

Segunda notícia do dia: a estagiária que namora está tendo um caso com o gerente de tecnologia de informação casado com uma grávida com problemas de saúde. A onda de calor turva minha visão e pensamentos e dou um riso antimoralista que ofende as duas meninas que me contaram esta fofoca.

Consigo sair na hora do rush. Dezoito horas. Tenho dentista às 20h30 perto de casa. Pelas minhas contas, chego em casa às 19h30, me refresco e vou para a sessão de tortura bucal.

Ônibus para o metrô demora mais do que o normal. Lotado. Calor. Suor. A prova de que o aquecimento global é inevitável são as gotas de suor que descem das minhas tetas e costas. I-ne-vi-tá-vel.

Chego no metrô. Muita gente. Minha experiência diz que aconteceu alguma merda. Passa um trem lotado, espero. Passa outro trem lotado, espero de novo. Passa mais um trem lotado, resolvo esperar o próximo. Passa mais um trem lotado e eu entro. As pessoas não sabem se comportar. O cara do meu lado acha que está sozinho e o braço dele fica encostando na minha cabeça. Os seios da menina ao lado estão espremidos para cima e isso tira a atenção do maldito mal educado. Firmes e lisos eles balançam suavemente a cada freada do trem. Mais gente entra e eu perco essa visão.

Terceira notícia do dia: em 2014, SP é o estado que mais deve registrar casos de câncer. 152.200 novos casos serão diagnosticados no estado. Mais de 150 mil pessoas sofrerão com a doença. Quantas pessoas estão aqui neste trem comigo? 0,2% das pessoas que estão neste vagão terão câncer neste ano. Câncer de pele, próstata, mama, cólon, reto, pulmão, estômago, útero. Façam suas apostas. O inferno tem que ser infinito. Despreocupado é o demônio. Penso nesta volta para casa, penso na ida ao dentista, penso na tomografia que vou fazer, penso no câncer de boca que vou ter.

Chego na Sé linha 2-vermelha e está abarrotada. Mais do que o normal. Normal. Como se existisse o normal. Aconteceu uma merda maior ainda. Entro no trem parado achando que ele ia começar a se movimentar logo. Nada. Dez minutos, vinte minutos. Gritaria. Retiro os fones do ouvido e ouço melhor. Uma voz informa que o trem da linha 2-vermelha vai ser evacuado. Não o meu, mas o trem do outro lado. Percebo uma multidão se movimentando, xingando, batendo nos vidros. Trocentas pessoas aglomeradas. O bafo do calor cria uma massa marrom dentro do trem vizinho. Distingo braços levantados, alguns movimentos de mãos se abanando e celulares filmando toda a situação. E eu ainda tenho que ir ao dentista. Saio do meu trem e volto a linha 1-azul e vou para Santana. Passa um trem lotado e eu aguardo o próximo. Passa outro trem lotado e eu entro. Um homem com cabelo de Elvis, camisa de cetim vermelha e sapatos brancos chama minha atenção. Chego em Santana. Sinto a baforada do diabo quando saio do trem. Mal estar. Entro no ônibus lotado e o único lugar vago é atrás de uma menina que está comendo salgadinhos de bacon. Cheiro de bacon no ar. Mal estar. Dez minutos e nada. O ônibus sai do terminal. Devo chegar em 20 minutos em casa. Travo o iPod na música "European Son" do Velvet Underground: “you better say so long, hey hey, bye bye bye”. Pego o meu livro “Black Spring”, do Miller, para ler. Estou na parte de um sonho alucinante misturado com pesadelo. A parte mais surreal do livro. E ele descreve um inverno. O mais frio de todos. E o suor desce pelas minhas dobras. E a última parte do capítulo grita comigo:

“OUT OF BLACK CHAOS WHORLS OF LIGHT WITH PORTHOLES JAMMED. OUT OF THE STATIC NULL AND VOID A CEASELESS EQUILIBRIUM. OUT OF WHALEBONE AND GUNNYSACK THIS MAD THING CALLED SLEEP RUNS LIKE AN EIGHT-DAY CLOCK.”

“FORA DO CAOS NEGRO, ESPIRAIS DE LUZ COM VIGIAS EMPERRADAS. FORA DO VAZIO ESTÁTICO E NULO, UM INCESSANTE EQUILÍBRIO. FORA DAS BARBATANAS DE BALEIA E SACOS DE ANIAGEM ESTA COISA LOUCA CHAMADA SONO FUNCIONA COMO UM RELÓGIO DE OITO DIAS.”

Duas horas e quarenta e dois minutos para chegar em casa. Para ir à tortura bucal. Duas horas e quarenta e dois minutos para o câncer na boca. A doutora não quis me esperar. Perco a consulta. Adio a tortura. Adio o câncer.

Quarta notícia do dia: Após falha, metrô de São Paulo tem quebra-quebra, tumulto e desmaios. Usuários da linha 3-vermelha acionaram botão de pânico e andaram pelos trilhos. Estações são fechadas.

E mais um dia, o bafo do diabo deu a volta ao mundo.

27.1.14

Black Star

Não sei como dizer isso, mas vou ser honesto. Algo q eu gostaria de dizer pessoalmente mas é difícil nos encontrarmos. Não sei mais se quer ser ajudado ou se precisa de ajuda. Tentei te ver mas pelo que eu percebi você prefere curtir sua bad vibe do que passar algumas horas comigo e tentar se animar. Gosto muito de você e isso e uma questão minha. E não quero que você vire um problema para mim. Queria que fosse diferente. Sem você querer, sua situação delicada acabou me atingindo também, porque me preocupo com quem eu gosto - já te disse isso também. E sei também que cabe a mim escolher me afastar ou não. Escolhi por enquanto não. Todos somos complicados, mas como disse antes, tem que haver uma abertura, uma força de vontade. Tentei entender o que está acontecendo, tentei ficar por perto mas só notei resistência. Apenas não sei mais. Talvez você precise de mais tempo, não sei. Enquanto espero algumas respostas só sobram as emoções e duvidas para ocuparem nosso tempo. Posso estar enganado e provavelmente estou mesmo - faltam algumas pecas, falta comunicação. Ninguém diz nada até que vem a tona. Me ajuda a te ajudar. Você sabe que eu quero que você fique bem. Conversa comigo, me ajuda a entender. Se abra. Ou não. : ) Se não quiser dividir, não tem problema. Respeito isso porque já passei por isso e é assim que eu me resolvo nessas situações delicadas. Eu me afasto antes de eu afastar quem se preocupa comigo. Porque eu sempre quero que quem gosta de mim volte para perto. Só preciso saber de você.

5.1.14

04h19

Não acredito em certezas e nem no eterno. Acredito que eu quero passar minha vida com você. Agora e não para sempre.

31.12.13

Season Finale VII



Fantasmas e Reflexos

Ano passado passei por uma descontrução e desencontro pessoal.

Vai ver não estou quebrado. Vai ser sou assim mesmo...

Se na temporada anterior me desencontrei comigo, nesta que termina agora fui de encontro com uma pessoa inesperada. Meu reflexo. Encontrei nas pessoas que fotografo meu próprio reflexo, um espaço para me encaixar. Todos são fotografáveis, mas poucos se destacam na multidão.

Onde estou agora? Com quem estou? E  para onde estamos indo? Vou me perder. Quero me perder de mim mesmo, mas isso só faz com que eu acabe entrando mais ainda nesta caverna já tão conhecida por mim. Apesar de escura, aprendi a conhecer cada detalhe da parede cavernosa. A maioria dos detalhes me assustam. Outros me observam e eu fico paralisado sem ar encarando a escuridão. Fui eu que mudei? Se não fui eu, então foi essa caverna...

Fiquei doente na caverna. Tive várias doenças e dores memoráveis. Paixões se transformaram em dores. Carinhos invisíveis. Carinhos imaginários. Carinhos platônicos que só eu sentia. E quando terminavam, os fantasmas carinhosos gelavam meu corpo por onde tinham passado. Interrompi esta dor/paixão mais uma vez – com uma experiência de cirurgião. Consegui superar? Nada ainda.

E a caverna foi se fechando. E outra dor surgiu... foi aparecendo devagar, rastejando até se enrolar no meu corpo e me sufocar: a dor do tempo.

Olhava para trás e vi reflexos de reflexos de reflexos infinitos. Nada mudou. Nada muda. E essa dor não tem cura. Preciso aprender que é o melhor remédio. Nada ainda.

Um pensamento intocável virou dor. O pensamento da rejeição antes mesmo de eu nascer. Por isso sou assim? Quantos “talvez” para responder esta pergunta? Nada ainda.

E como controlo o tempo? Meu tempo. O tempo dos outros? Não controlo, mas consigo faze-lo parar. Coleciono centenas de instantes que enxergo por onde ando. E andei. Andei sozinho em lugares desconhecidos. Fiz uma viagem pelo conhecimento de outros lugares. E foi um sonho do qual acordei. Nada ainda.

Dentro da caverna vi meu rosto. E reconheci o reflexo. Nossos olhos se fixaram. Passei meu olhar pelas formas da minha feição. Prestei atenção em todos os detalhes. Em todas as marcas que o breve tempo marcou. Foi assim que me reconheci. Foi assim que doeu novamente. Nada ainda.

E então veio o passado amargo de todos os Agostos. Escrevi antes de dormir que eu tenho certeza de que posso me matar. Também escrevi que o amor e a morte são as minhas únicas saídas. Também escrevi que espero ser encontrado. Como vida em outro planeta. Também escrevi que estou a procura de paixões para adiar a minha própria morte. Escrevi também que quero compartilhar minha solidão. Nada ainda.

E minha caverna deformada ficou menor. E para chegar no Paraíso, algo de terrível tem que acontecer.

Minha solidão conformada e acostumada estava me machucando fisicamente. E a morte da jovem Roberta questionou mais ainda minha própria mortalidade. Eu estava tão frio quanto ela durante seu velório e enterro. Observei de longe. Abracei fortemente a mãe dela e não disse nenhuma palavra. As lágrimas dela molharam minha camisa. Não me importei. Fui atingido pela morte. A dela e a minha. Senti. Uma sensação de entrega. Resolvi me entregar. Resolvi viver mais. Decidi me importar. Com a minha própria vida. Minha própria mortalidade. Perder tudo significa também ter a liberdade de se escolher o que vem a seguir, sem o peso esmagador das expectativas. Basta pular ou ser empurrado. Olhei para a caverna deformada e nela falta, acima de tudo, o empirismo que eu tanto exijo. Queria experimentar e conhecer. 

E conheci. Conheci você, que me quis como eu sou. Mas sou incrédulo e sonhador. Depois te desconheci. Na esperança, o gostar reduz. Na frustração, o gostar acaba. E você se foi. E a saída da caverna é lenta. Nada ainda.

Eu sou o meu outro. Sou meu reflexo. Existo a partir das minhas experiências. Parece que existe algo que pode se desdobrar em minha mente. Que ainda pode me marcar. Mais profundamente. Basta existir para ser completo. Nada ainda.

Instabilidade e incerteza provocam mudanças, mas depois de um tempo tudo pode ficar cansativo e você pode querer estar firmemente onde sempre esteve. Tudo entorpece com o tempo, tudo se torna menos pessoal. Estamos eternamente condenados a ficar sem.

E se nos falta algo, somos incompletos. Se perdemos algo, somos perdidos. Vulneráveis contra perigos e paixões reais e imaginários. E se não faz sentido, tudo bem... Quem precisa disso? Vai ver é assim mesmo.

A ideia da repetição do reflexo assombra ela mesma e se relaciona com as ideias de experiências e pensamentos. O que é perdido são as partes de nós mesmos que esquecemos ou escolhemos esquecer, o que é lamentável são nossos arrependimentos e os nossos limites pessoais impossíveis nos definem.

Tudo o que nos acontece torna-se distante de nós e quando olhamos o reflexo de nossa vida, percebemos que as coisas que queremos esconder na caverna nos fazem ser o que somos. Como então posso desistir do fantasma da caverna ou ir além destes pensamentos e experiências que almejo se eles são partes de mim?

É a ironia e a verdade, meu eterno paradoxo: vivo na caverna e tenho este espaço para preencher a fim de seguir em frente. E embora eu seja a mesma pessoa que era quando entrei na caverna pela primeira vez, evoluí através de minhas experiências e reflexões. Tudo ainda há de vir.

E que eu comece a dançar com dois sorrisos diferentes no rosto. Que eu sorria enquanto estiver indo para casa. Juntando pedaços de amor, sonhos e canções diariamente. Canções que eu consiga dividir com meus homens e mulheres loucos. Que alguém cante para eu dormir. Que a escuridão e o barulho branco preencham minha caverna. Que eu não dê a mínima para o por do sol. Que um dia eu sinta os anéis de Saturno nos meus dedos – que o amor venha do acaso, de forma aleatória. Que eu rasgue o que um dia eu costurei, sorrindo e de olhos fechados e sem propósitos. Que eu me perca fora do espaço e do tempo e não me pergunte onde estou. Que eu me liberte do meu reflexo e desapareça como um fantasma. Nada ainda.

To be continued...


“O resto pertence à vida e à ausência de vida”
Henry Miller

“Há conhecimento da consciência. Ela se vê de um lado ao outro, tranquila e vazia entre as paredes, libertada do homem que a habitava, monstruosa, porque não é ninguém.”
Jean-Paul Sartre


11.12.13

Uma frase sempre martela na minha mente em incontáveis momentos e foi tatuada no meu cérebro para sempre: "NADA é verdadeiro. TUDO é permitido". Esta frase me assombra até hoje, me levando a paradoxos sublimes de pensamentos que me completam e me subtraem algo ao mesmo tempo. Há um véu de incerteza sobre a minha cabeça, onde desconfio de tudo. O que sempre me leva a não acreditar e confiar em mim mesmo.

28.11.13

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