17.6.14

Ouroboros

Não estou magoado com você. Nós estávamos juntos. Eu esqueci todo o resto. Estou magoado comigo mesmo. Pensei que ia ser fácil. Pensei que poderia acreditar em algo que não acreditava fazia anos. Acreditar em expectativas. Mas isso só resulta numa coisa. Estou magoado comigo mesmo porque achei que era recíproco. Não estou dizendo que você mentiu quando disse que gostava de mim. Você pode até ter gostado. Mas não existe reciprocidade sentimental para mim. Eu nunca vou gostar de mim mesmo. Sempre fui e sempre vou ser egoísta, só enxergava em você a minha rejeição e condição de rejeitado. Entre eu e os outros há um abismo. Um abismo sentimental. E é nesse paradoxo que sobrevivo. Até eu me juntar aos outros no fim do abismo. Eu preciso me transformar em algo que eu precise. Como se chama uma metamorfose quando você se transforma em você mesmo?

10.6.14

Dada

I had a busy morning in the office. There was a pile of bills of lading waiting on my desk and I had to go through them all. Suddenly, at the end of a corridor leading at right angles from this one, he caught sight of a figure as it lunged into view, a man. The man saw him. Reminds me of an old friend of mine, one of the handsomest men I have ever know and one of the maddest and absolutely ruined by wealth. I began to review the evolution of this love. Evolution? There had been no evolution. It had been instantaneous. Why, and I was amazed to think that I should adduce this proof, why, even the fact my first gesture had been one of rejection was proof of the fact that I recognize the attraction. Don't you mean that the other way around? You're a bit confused.
 

28.4.14

Germes dos outros

Olho para o lado
e te vejo cansado
pensando
pensado
boceja
mão na boca
protege o bafo
esquenta a mão
mão na alça do banco
mão na outra mão que segurou ali
germes dos outros na mão quente
pensado
cansado
boceja
mão na boca
bafo na mão
germes na mão
germes na boca
germes dos outros na boca
mão no banco
banco de germes
boceja, mão na boca
germes dos outros na boca
tosse
baforada de germes no ar
germes dos outros no ar
respira
respira os germes dos outros
germes dos outros no pulmão.

20.3.14

De volta à caverna

Eu sou meu próprio antepassado. Eu sou meu próprio ancestral. Nas paredes pouco iluminadas revejo desenhos primitivos que eu mesmo fiz há milhões de anos atrás. Identifico minha própria caligrafia garranchosa. Releio as frases que deixei para trás. Nada mudou. Poderia ter escrito essas profecias hoje pela manhã que elas iriam se concretizar numa próxima leitura. Da forma que eu não mudo, profetizo dias presentes. Posso prever o meu futuro se acaso eu não mudar. E é o que vem acontecendo: escrevo sobre hoje para ler no hoje de amanhã.

8.3.14

Quaresma II

Hoje fiz uma fotografia interessante e pensei que a partir dela poderia se iniciar uma nova série. Daí me perguntei por que eu crio séries? Para dar continuidade às coisas que crio? No caso da “Underground Stars” e “São Paulo Anônima” foi algo espontâneo, um conjunto de fotografias com um mesmo tema que precisavam ou não de um título. Como os temas foram se repetindo, surgiu uma série. Mas voltando a minha infância, eu sempre criei séries. Eu tinha um grupo de super-heróis, uma história em quadrinhos que comecei em 1999 e desenhei até 2005. E teve um encerramento... Crio séries para ter o controle de encerra-las? Acho que faz sentido. Até quando eu parei de brincar com bonequinhos de heróis, eu dei um final digno de cinema! Algo como se a última brincadeira teria que ser espetacular e memorável...

Hoje tenho outros tipos de séries. Tenho meus “shuffles”, uma série de mixtapes, trilhas sonoras de filmes que só existiram na minha mente. Tenho também as séries de fotografias de desconhecidos que sempre chamam minha atençãoo pelo olhar. E tenho a série da minha vida. Tenho o controle dela e posso encerrar a qualquer momento.

Não acredito que a vida seja sagrada. Acredito que foi tudo um grande acidente. Mas o mistério mais incrível de todos é a consciência, o pensamento! É muito errado – a palavra não é “errado” – não sei! Acredito que pensar deixou tudo pior. A consciência é horrível.

Mas estes são só pensamentos sem fim para se perderem na minha caverna escura. Assim como eu.

5.2.14

Comecei uma nova mania: todo dia me fotografo e no computador desenho meus traços e depois aplico este desenho numa pintura. Sinto que estou tentando me remover de mim mesmo, assim como toda noite retiro meu óculos e meu rosto verdadeiro aparece para dormir, sonhar, viver outra coisa. Ou quando retiro meu óculos e minhas roupas para tomar banho e fico verdadeiramente nu na minha única e solitária intimidade. No máximo não estou sozinho, estou comigo mesmo.

Anteriormente