8.5.19

Como um réquiem quando falam sobre o amor

Outro dia estava eu a embarcar num sono pesado, pesado e longo. Finalmente apaguei. Apaguei. E acordei com os olhos fechados sentindo o odor de mata fechada. Não havia som, só a paralisia. Foi quando percebi que da minha boca aberta saía uma fumaça infinita. A boca não se fechava, a fumaça só aumentava. Não estava desesperado. Estava apenas esperando, esperando que terminasse, esperando que me levassem, esperando que me buscassem, esperando que algo acontecesse. Nada aconteceu. A fumaça continuava a sair e saía, e saía e saía e saía e subia e subia no espaço infinito. Não ia pro céu, não ia pra terra, não ia pro mar, arrumava espaço em seu próprio espaço. Tudo que me cercava era fechado. A fumaça tomava conta do lugar. O incêndio é dentro de mim. Eu pensei: não, não sinto calor, não sinto frio, não sinto nada. Vinha fortemente de dentro de mim a fumaça que esfumava minha vista e me deixava a ver nada e ter nenhuma ação. Eu fechei os olhos novamente buscando acordar do sonho que não era sonho e também não era realidade. Nada e nada vinha e eu já acostumado com aquela situação já não, já não esperava nada e nada e do nada veio e começou a ventar e começou a chover e a fumaça chovia. Eu fiz a chuva. Começou a alagar. Eu flutuava na piscina que se criou e não sabia como boiava, apenas era isso. Fui subindo até onde a fumaça estacionou e não encontrei nada. Era tudo branco e vazio e eu ali boiando, literalmente, tentei fechar os olhos novamente para acordar, mas eu não estava dormindo. Eu nunca imaginei viver a realidade pessoalmente, mas ali ela estava na minha frente como os monções na Índia. Como um convite para desaparecer por completo. Como um réquiem quando falam sobre o amor.

29.4.19

Toque

Ah, se eu fosse um feiticeiro
Tomaria a sua rejeição
E transformaria em desejo certeiro
Num vendaval de afeição

Ah, se eu fosse um milagreiro
Tomaria o seu suspiro
Transformava-o em fogareiro
Incendiando meu respiro

Ah, se eu fosse um mago
Tomaria o seu pálido olhar
E com a força de um relâmpago
Faria da noite um amanhecer a brilhar

Ah, se eu fosse um sonhador
Tomaria o seu não
Rogaria por sim
Num suplício encantador

Ah, se eu fosse um imortal
Tomaria o seu desapego
Ninharia maternal
Num eterno aconchego

Ah, se eu fosse o seu desejo
Permearia o seu corpo
Desbravando em solfejo
No ritmo do seu contorno

Ah, se eu fosse a natureza
Tomaria a sua semente
Tiraria sua incerteza
Para florir eternamente

Ah, se eu fosse experiente
Buscaria em brincadeira
Por seu amor inconsciente
Porque não sei te amar de outra maneira.

27.3.19

Dois de Paus

Alguma coisa aconteceu e eu estou de ponta cabeça. Só percebi quando aconteceu. Um solavanco me deixou de ponta cabeça. Flutuando no meu próprio espaço dentro dos meus pensamentos. Uma inércia irônica que faz meu coração acelerar e sentir um frio na barriga. Estou estático por fora, porém na velocidade da luz por dentro. Uma divisão interna, um duelo entre o pessimismo que tanto já venceu e o otimismo, novato. Amaldiçoado se vencer, condenado se perder. O fantasma da insegurança recém falecida volta para uma visita particular. Fria, suas mãos passeiam no meu corpo. Fecho os olhos e tento esvaziar meus pensamentos. A mão fria da insegurança já está no meu peito. Não há uma distância segura entre meus medos e o sistema de toque. Minha cabeça volta a ficar enevoada e eu me perco em direções e decisões enroladas que tomei e as que tomarei. Pare. Observe tudo. "Esteja alerta para a regra dos três. O que você dá retornará para você. Essa lição você tem que aprender. Você só ganha, o que você merece". Testemunhe as energias em movimento. A clareza virá lentamente. O processo de decisão terminará e a escolha será clara. O que perderei? O que eu queria? Longe demais para ouvir a resposta. Silêncio.

"Esteja alerta para a regra dos três. O que você dá retornará para você. Essa lição você tem que aprender. Você só ganha, o que você merece". A Lei do Triplo Retorno Wicca

19.3.19

Ogum me pediu fogo emprestado

Nos últimos cinco meses meu coração tem pedido atenção. No começo, ele acelerava e cessava a minha respiração. Eu suava e enxergava só pânico, desespero e morte. Duas, três vezes seguidas. Noites acordadas. Peito dolorido. Pernas inquietas. Só voltava aos batimentos normais com medicamentos fortes. Mas o que é normal para o coração mesmo?

Depois a ansiedade foi controlada por ansiolíticos. Estou medicado. Junto veio a sugestão de exercícios físicos para equilibrar o corpo, o coração e cérebro. Ok, vamos lá. Mas antes, um check up. Sempre evitei check ups e exames com medo dos resultados. Será que eu tenho algo? O que fazer se tiver? Daria tempo para viver como eu quero?

Bora lá. Sangue completo, ecos, ergométricos. Bum, bum, bum. Cada vez mais forte, mas agora por outro motivo.

No período durante os exames, o coração demandou atenção novamente. Virou o centro do meu corpo. Ele assim queimava, esfriava, pulsava harmoniosamente. Paixão. Violenta. Quase cega. Me derrubou geral. A única defesa foi a entrega. Estava me sentindo ótimo. Tive que ouvi-lo pela primeira vez por completo em 15 anos. E veio o espírito. E meu corpo reconheceu a paixão. Agora a paixão é por mim mesmo. Valorizo quem eu sou, me enxergo como amigos íntimos me enxergam. Aceitação verdadeira. Amores à primeira vista.

Corpo, mente e espiritualidades sãs. E coração também. Hoje busquei os exames e está tudo bem. "Continue assim", a doutora encorajou.

Me sinto protegido. Por mim mesmo e pelas minhas paixões. E pelo meu coração.

A vida é um caminho, e seres, sendo partes da vida, são eles mesmos vias deste caminho. Se reconhecemos esse fato e o aceitamos, estamos aptos, independente das vias e rotas, a conhecermos a paz e a apreciá-la. Mas para chegar a esse fim, que é apenas um começo (pois ainda não começamos a viver!), nós temos que aprender a doutrina da aceitação, isto é, da rendição incondicional, que é o amor. Próprio e pelos outros.

Descendo a rua, Ogum me parou um instante para pedir fogo, acendeu seu cigarro, me reverenciou, me olhou penetrante e seguiu seu caminho. Segui o meu. Numa nova via.

12.3.19

Você está na minha visão periférica

Você está na minha visão periférica. Minha concentração abalada. Acendo um cigarro atrás do outro mesmo não querendo fumar. Bebo um gin para relaxar minha mente. Mas a paixão é mais forte. Estou doente de paixão. Daria tudo para estar ao seu lado, ao seu corpo, ao seu cheiro, ao seu gosto, ao seu sorriso. Daria tudo para me ver nos seus olhos de mel. Tão cheios de luz que iluminou minha existência apagada. Eu me percebi. Eu sou. Eu existo. Eu adoro quando você me faz cócegas, a coisa que eu mais odeio. Você ressalta meus defeitos para transformá-los em qualidades. Tento não pensar duas vezes, não quero expectativas, quero decisões, se ele existe, quero seu amor. Eu estou no lado escuro da estrada e você ali, longe e iluminada. E eu parado, nuvens chorando, estrelas sumindo, e você ali, como a lua, longe e praticamente inacessível. A nossa intensidade me devorou como um lobo selvagem. Eu penso em você e imagino o quanto de realidade é realmente real. E sim. Você existe. Há alguns quilômetros de distância você está lá. E eu estou aqui. E você também. Na minha visão periférica.

31.12.18

Season Finale XII

Muitas vezes um passo para a frente não pode ser desfeito. Muitas vezes um passo para a frente significa seis passos para trás. E aí, como você dorme? E aí, como você vive? Como todo mundo vive? Essa é a sombra de pensamento que me acompanha. Como todos podem estar sorrindo? Eles não estão vendo ou vivendo o que estão na frente delas? E pernas não param quietas, e os pensamentos voam e o ar cessa e o peito dói. Eu realmente só queria andar meio desligado no meio da multidão. Dopado. Ou desligado sozinho no meu canto. E desta vez eu consegui. Mas eu não estou realmente sozinho. Posso estar, mas não estou. É complicado. Eu preciso tirar um retrato da minha cabeça. Analisar o que tem lá dentro. Pelo menos uma única tentativa antes de dar adeus a tudo que eu conheço. Como eu durmo? Com calor. Com frio. Com ansiedade. Com sede. Durmo lembrando dos momentos de embriaguez solitária em lugares desconhecidos. Durmo com vontade de repetir tudo isso e para sempre. Durmo ansioso querendo chegar logo aos sonhos e aos pesadelos. Durmo para chegar neste lugar descontrolado que é a minha imaginação. Meu "kumomi" dos sonhos aleatórios. Meus sonhos invertidos, onde o que está em cima, está lá embaixo e vice-versa. Porque o chão é azul e ele me faz rir. Espero conseguir o que preciso.

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