23.3.26

Inventário


 






















I. (março, 2026)

Os mísseis caem do céu

Não é o suficiente

A chuva não para

Não é o suficiente

A música não para de tocar

Não é o suficiente

O vazio preenche

Não é o suficiente

O silêncio se faz

Não é o suficiente

Só o enquanto existe

Não é o suficiente

Um tesouro é encontrado

Não é o suficiente

As estrelas iludem

Não é o suficiente

Leonard está nos fios

Não é o suficiente

O racional não acompanha

Não é o suficiente

O cronológico não acompanha

Não é o suficiente

O fim não chega

Não é o suficiente

A porta abre

delírio, delírio

antes tarde do que nunca


II. (outubro, 2025)

O peito que aperta

O frio no estômago

As mãos que tremem

Os pés que gelam

A mente desfoca

A boca que seca

Os olhos que caem

As pernas bambas

As têmporas que pulsam

Os ouvidos que zumbem

O coração que acelera

O silêncio que chega


III (março, 2026)

o mapa chegou


DEPOIS


(óbvio)


eu já tinha atravessado tudo

sem legenda

sem norte

sem você


rios — inventados

cidades — sem testemunha

portas —


abrem


pra lugar nenhum


ou pior:

pra um quarto

que continua existindo

sem mim



aprendi a língua errada


tarde


a palavra certa

morreu na boca

de quem podia me dizer


e eu


heroico


patético


continuei nomeando



FOGO


até apagar

e virar temperatura


AMOR


até cansar

e virar clima


NÓS


até romper

e virar estação



OUTONO


não esse

de poema bonito


o outro


o que derruba

sem consultar

sem aviso

sem diálogo


o que já estava decidido

antes de você abrir o olho

antes de mim

antes de qualquer tentativa

ridícula

de controle



estendi a mão


(erro técnico)


a outra já tinha desistido

com antecedência


dei nome à ferida


(erro conceitual)


ela já tinha terminado o trabalho

e ido embora



existe um ponto


anota isso


um ponto exato

em que entender


é inútil


não salva

não resolve

não recompõe


só interrompe


te deixa parado

no meio da frase


olhando

pra lugar nenhum



o amor aqui


continua


(ou finge)


o de lá


não responde


entre os dois


não tem distância


tem silêncio

assinado

reconhecido

em cartório invisível



o corpo


não mente


o peito aperta

o estômago esfria

as mãos tremem

os pés recusam


o coração acelera


tarde também


sempre tarde



e no fim


(não tem fim, eu sei)


mas no fim


isso aqui


tudo isso


essa engenharia

essa tentativa

essa obsessão por nomear o irreversível


não serve


pra nada



o mapa continua chegando


DEPOIS


sempre depois



e eu


continuo atravessando


antes


durante


depois


sem ele


como quem já sabe


mesmo sem saber


que nunca houve caminho



o movimento



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