I. (março, 2026)
Os mísseis caem do céu
Não é o suficiente
A chuva não para
Não é o suficiente
A música não para de tocar
Não é o suficiente
O vazio preenche
Não é o suficiente
O silêncio se faz
Não é o suficiente
Só o enquanto existe
Não é o suficiente
Um tesouro é encontrado
Não é o suficiente
As estrelas iludem
Não é o suficiente
Leonard está nos fios
Não é o suficiente
O racional não acompanha
Não é o suficiente
O cronológico não acompanha
Não é o suficiente
O fim não chega
Não é o suficiente
A porta abre
delírio, delírio
antes tarde do que nunca
II. (outubro, 2025)
O peito que aperta
O frio no estômago
As mãos que tremem
Os pés que gelam
A mente desfoca
A boca que seca
Os olhos que caem
As pernas bambas
As têmporas que pulsam
Os ouvidos que zumbem
O coração que acelera
O silêncio que chega
III (março, 2026)
o mapa chegou
DEPOIS
(óbvio)
eu já tinha atravessado tudo
sem legenda
sem norte
sem você
rios — inventados
cidades — sem testemunha
portas —
abrem
pra lugar nenhum
ou pior:
pra um quarto
que continua existindo
sem mim
—
aprendi a língua errada
tarde
a palavra certa
morreu na boca
de quem podia me dizer
e eu
heroico
patético
continuei nomeando
—
FOGO
até apagar
e virar temperatura
AMOR
até cansar
e virar clima
NÓS
até romper
e virar estação
—
OUTONO
não esse
de poema bonito
o outro
o que derruba
sem consultar
sem aviso
sem diálogo
o que já estava decidido
antes de você abrir o olho
antes de mim
antes de qualquer tentativa
ridícula
de controle
—
estendi a mão
(erro técnico)
a outra já tinha desistido
com antecedência
dei nome à ferida
(erro conceitual)
ela já tinha terminado o trabalho
e ido embora
—
existe um ponto
anota isso
um ponto exato
em que entender
é inútil
não salva
não resolve
não recompõe
só interrompe
te deixa parado
no meio da frase
olhando
pra lugar nenhum
—
o amor aqui
continua
(ou finge)
o de lá
não responde
entre os dois
não tem distância
tem silêncio
assinado
reconhecido
em cartório invisível
—
o corpo
não mente
o peito aperta
o estômago esfria
as mãos tremem
os pés recusam
o coração acelera
tarde também
sempre tarde
—
e no fim
(não tem fim, eu sei)
mas no fim
isso aqui
tudo isso
essa engenharia
essa tentativa
essa obsessão por nomear o irreversível
não serve
pra nada
—
o mapa continua chegando
DEPOIS
sempre depois
—
e eu
continuo atravessando
antes
durante
depois
sem ele
como quem já sabe
mesmo sem saber
que nunca houve caminho
só
o movimento
…

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