Eu me perdi de mim mesmo.
Venho colocando todas as coisas que me acontecem num pequeno armário cheio de gavetas. As pressões profissionais, as reclamações dos outros, as chateações, os rápidos momentos felizes, as longas tristezas, a gigante solidão que ocupa o mesmo espaço da grande melancolia. Não consigo mais viver o presente sempre despercebido e quando olho para o relógio já tenho que dormir que para acordar novamente e voltar a encher as gavetas loucamente. A pressa de dias curtos tirou o foco dos meus momentos. De mim mesmo. Já não existo mais para mim. Ou sinto isso. Vivo pela consciência automatizada. Sou levado por um rio violento até um penhasco. Sempre senti o penhasco, mas nunca o avistei. Agora sinto ele cada vez mais perto. Preciso de uma ponte, um suporte, uma boia salva-vidas para agarrar e respirar. Preciso de tempo para respirar. Preciso de tempo para mim mesmo. Preciso voltar ao que eu era. E o que eu era?
Preciso me reencontrar comigo mesmo.
Eu vivia o presente. Aproveitava os momentos (os bons e os ruins). Não precisava empilhar nada em armários e gavetas. Hoje eu não sou mais do que uma percepção. Uma percepção vazia.
Passo despercebido enquanto o dia termina e a noite começa num contínuo viciante. E quando tudo se acumula, as gavetas estouram e me soterram em pensamentos destrutivos. O peso de tudo que foi guardado e acumulado nos últimos tempos me pressionam, mas força para reerguer eu não tenho. Encaro todo esse peso com uma feição assustadora. Estou realmente assustado. Quando foi que eu deixei de existir para mim mesmo?
Antes na minha caverna eu me sentia confortável com meus monstros e demônios. Eu os conhecia bem. Sabia nomea-los se preciso. Tratava-os bem. Fazíamos companhia uns aos outros. A caverna era amigável. Era minha morada.
Hoje quando consigo às vezes entrar nela, já desabo cansado, torturado por pensamentos cotidianos que martelam minha uma consciência até fragmentá-la em pedacinhos insignificantes que eu junto com as mãos e deixo numa gaveta. E as marteladas se repetem todas as noites.
Todas as noites. Todas as noites. Todas as noites. Todas as noites. Todas as noites. Todas as noites. Todas as noites. Todas as noites. Todas as noites.
Uma tragédia recente conseguiu me desfocar deste trabalho automático de desmantelar a minha consciência diariamente.
Uma vida jovem se foi para sempre. Uma alegria desapareceu. E eu me senti mais incompreendido do que antes. Ou melhor, me atentei a uma nova incompreensão.
A incompreensão da injustiça da morte. Ele se foi jovem e disposto e eu continuo vivo desperdiçando o que me resta com um passo mais próximo a inexistência. Apressando esse processo com vícios e maneirismos ridículos.
De um lado estou lotando gavetas e armários com fatores externos que tiram a minha atenção de mim mesmo e do outro lado castigo minha própria morada com toxinas e repelentes sociais. Só há espaço para monstros e demônios que me assustam: o monstro do ódio a mim mesmo, o demônio da auto rejeição, o monstro da indisposição pessoal, o demônio da depressão, a morte do ego.
A correnteza violenta do rio que me afluia ao nada hoje se transformou em longas e pegajosas sombras. A escuridão me asfixia e eu sinto a pressão negativa dentro da minha cabeça. Meus ouvidos ficam tapados e se contraem com as batidas do meu coração, meu pulso enfraquecendo, minha saliva secando, minha visão turvando. Os tímpanos se fecham. É a resposta do meu corpo para não querer mais ouvir essa merda toda. A infecção consome, as manchas vermelhas aparecem. Tudo quer sair de mim, mas a minha mente trancafia os armários e gavetas lotados de incompreensão. Meu corpo começa a expurgar de qualquer maneira. A natureza é divina, a biologia esperta. Uma auto sobrevivência é acionada na central de controle. A lombar se trava e a imobilidade vem. O dia pode até amanhecer, o sol pode até iluminar o meu quarto, mas a minha mente é só escuridão e desespero. Seria tão lindo e mais fácil se eu pudesse sonhar para sempre. Um mundo de sonhos somente para mim. Aceito até mesmo os sonhos obscuros a uma realidade intragável.
Minha auto-identidade não está morta por completo. Mas um processo revitalizante será necessário para eu me reencontrar na perdição de tantos pensamentos malditos acumulados.
O sentido de unidade se perdeu. Agora é tudo quantitativo.
Os espíritos estão atrás de qualquer luz durante a quaresma.
Só o empirismo e a necessidade salvam! Adaptação. Sempre.
13.2.18
31.12.17
Season Finale XI
Anteriormente em Season Finale...
Lembro que na temporada anterior eu clamei pelo inédito. Por algo que nunca tinha visto antes. E fui bem recompensado.
Visitei lugares inesperados e outros que já esperava há muito tempo. E foi tão familiar.
Pela primeira vez fiquei sozinho de verdade. Sou um ser solitário, mas sozinho foi a primeira vez. O que o futuro me reserva não foi do meu agrado. O que eu faria para mudar o que me espera?
Nada o que pode ser mudado, mas muito o que pode acontecer. Sou absolutamente um iniciante. Percebi isso nesta temporada ao me deparar com o inédito que sempre pedi aos céus.
Em sonhos eu sou levado ao reconforto. Tudo é do meu agrado, tudo é uma novidade e caso eu tenha algum problema ou os sonhos se transformem em pesadelos, eu acordo e está tudo certo.
Ou acordo para a realidade. A realidade sem controle. A realidade desigual e assustadora. A realidade da rotina. A realidade de elevador sem fim, que vai de andar em andar sem nada para acontecer. Subindo, descendo, qual a diferença?
Vou sonhar um dia que somente existirá minha imaginação. A única condição real é estar sozinho. Ontem me fiz de ridículo, mas isso não me afeta hoje, e pedi perdão. Esta tarde, embora ainda nada realmente aconteceu, fui andar por aí e fiz retratos anônimos. Finalmente veio a noite e acendi a luz. Finalmente, um dia de calma inventada!
Eu já ouvi esse som antes. Esta voz. Eu nunca a ouvi na minha casa. Nunca a escutei no meu quarto. Esta voz pertence a lá fora. Nas ruas. A voz me carrega para fora. A voz sem um rosto. Somente a voz. E ela penetra em meus ouvidos. Descendo até minha garganta. Eu a sinto enfraquecendo meu estômago. E então, o silêncio. E nada. E a escuridão. Eu sinto o chão nas minhas costas. Os fantasmas de março ainda estão aqui. E amanhã tudo se repetirá. Vamos todos torcer para que tudo isso termine logo.
Seria estes meus comentários mais lúcidos do que os outros?
Só o distante passado dirá quando o futuro do presente chegar. Quando o invisível se tornar visível. Quando esquecermos o passado sombrio, quando chegarmos a paz sublime. Para uma pessoa traumatizada. Há inúmeras pequenas coisas queimando dentro de mim. Se retorcendo para chegar à superfície. Um novo mundo está chamando um novo homem.
Continua...
Lembro que na temporada anterior eu clamei pelo inédito. Por algo que nunca tinha visto antes. E fui bem recompensado.
Visitei lugares inesperados e outros que já esperava há muito tempo. E foi tão familiar.
Pela primeira vez fiquei sozinho de verdade. Sou um ser solitário, mas sozinho foi a primeira vez. O que o futuro me reserva não foi do meu agrado. O que eu faria para mudar o que me espera?
Nada o que pode ser mudado, mas muito o que pode acontecer. Sou absolutamente um iniciante. Percebi isso nesta temporada ao me deparar com o inédito que sempre pedi aos céus.
Em sonhos eu sou levado ao reconforto. Tudo é do meu agrado, tudo é uma novidade e caso eu tenha algum problema ou os sonhos se transformem em pesadelos, eu acordo e está tudo certo.
Ou acordo para a realidade. A realidade sem controle. A realidade desigual e assustadora. A realidade da rotina. A realidade de elevador sem fim, que vai de andar em andar sem nada para acontecer. Subindo, descendo, qual a diferença?
Vou sonhar um dia que somente existirá minha imaginação. A única condição real é estar sozinho. Ontem me fiz de ridículo, mas isso não me afeta hoje, e pedi perdão. Esta tarde, embora ainda nada realmente aconteceu, fui andar por aí e fiz retratos anônimos. Finalmente veio a noite e acendi a luz. Finalmente, um dia de calma inventada!
Eu já ouvi esse som antes. Esta voz. Eu nunca a ouvi na minha casa. Nunca a escutei no meu quarto. Esta voz pertence a lá fora. Nas ruas. A voz me carrega para fora. A voz sem um rosto. Somente a voz. E ela penetra em meus ouvidos. Descendo até minha garganta. Eu a sinto enfraquecendo meu estômago. E então, o silêncio. E nada. E a escuridão. Eu sinto o chão nas minhas costas. Os fantasmas de março ainda estão aqui. E amanhã tudo se repetirá. Vamos todos torcer para que tudo isso termine logo.
Seria estes meus comentários mais lúcidos do que os outros?
Só o distante passado dirá quando o futuro do presente chegar. Quando o invisível se tornar visível. Quando esquecermos o passado sombrio, quando chegarmos a paz sublime. Para uma pessoa traumatizada. Há inúmeras pequenas coisas queimando dentro de mim. Se retorcendo para chegar à superfície. Um novo mundo está chamando um novo homem.
Continua...
1.8.17
As coisas que eu ouvi, revisitadas
Ser sempre sendo azedo e seco.
Fingir sorrisos cordiais e simpatia.
Dizer não dizendo cabeça baixa quase oca.
Ouvir engolir passar outro dia de novo.
Repete a fora sem razão palavras que os outros querem ouvir.
Concordar sem concordar só pra ver o dia passar.
Deixar de lutar batalhas de ego para não desgastar.
Sentir a razão de ter evitado um problema que tinha solução.
Olhar sem olhar passando em branco.
Anotar na cabeça argumentos futuros.
Não cobrar pelo que te cobram, não dever pelo dever que te pedem.
Poder sem escolher dizer algo.
Não desfazer o que foi dito.
Ser o pequeno porque não há espaço para muitos grandes.
Ignorar.
Sorrir.
Acenar.
Cuidado.
Ao consertar algo quebrado.
Talvez você pode ser cortado.
Pelos pedaços estraçalhados.
Olhe para suas mãos.
Estão cobertas de cicatrizes.
Fingir sorrisos cordiais e simpatia.
Dizer não dizendo cabeça baixa quase oca.
Ouvir engolir passar outro dia de novo.
Repete a fora sem razão palavras que os outros querem ouvir.
Concordar sem concordar só pra ver o dia passar.
Deixar de lutar batalhas de ego para não desgastar.
Sentir a razão de ter evitado um problema que tinha solução.
Olhar sem olhar passando em branco.
Anotar na cabeça argumentos futuros.
Não cobrar pelo que te cobram, não dever pelo dever que te pedem.
Poder sem escolher dizer algo.
Não desfazer o que foi dito.
Ser o pequeno porque não há espaço para muitos grandes.
Ignorar.
Sorrir.
Acenar.
Cuidado.
Ao consertar algo quebrado.
Talvez você pode ser cortado.
Pelos pedaços estraçalhados.
Olhe para suas mãos.
Estão cobertas de cicatrizes.
27.7.17
Nenhuma estrela me alcançou hoje
Nenhuma estrela me alcançou hoje. Não tive que parar na frente de nenhum tanque de guerra. Não tinha chegado nem na metade do dia e já tinha tomado mais de cinco medicamentos. E um banho. E três copos de café.
Ainda não encontrei a paz em mim mesmo. Dizem que leva anos, mas não tenho a paciência. A saída é me encontrar nela eu mesmo.
Os níveis da minha audição estão baixos. Tenho a desconfortável sensação de estar debaixo d’água. Ouço os ruídos mais distantes. O ar pesado só sai de uma narina. A direita. As mucosas nos seios da minha face atrapalham a circulação do ar. Do ar reciclado. Do ar reciclado que os outros também respiram. Do ar respirado pelos outros. Pelos outros desconhecidos. Com suas próprias doenças desconhecidas.
O sistema respiratório está falido. Insisto em falir eu mesmo. Continuo a fazer fumaça internamente. Os ouvidos não estalam mais. Estão entupidos. Parados. Esta é a real.
A realidade cumpre a promessa dela mesma. Porque importa, porque registra nossa maneira de viver, porque às vezes basta. Não digo que basta para o bem ou para o mal. Apenas que simplesmente a realidade às vezes é o suficiente. Suficiente para respirar, ouvir, comer, abraçar, violentar, pensar, sonhar, sentir, viver e morrer.
Tenho certo apego ao fracasso. Não acredito ser algo ruim. Depende do ponto de vista de quem tem sucesso. Não quero para mim o que um verdadeiro perdedor tem como recompensas. Sinto que desistir é um fetiche. A glória que existe em um fracasso verdadeiro chama minha atenção. Os fracassados têm um charme único. O brilho de um vencedor é muito irritante. Ofusca minha visão. A altura do pódio é altíssima. E eu não tenho medo de altura. Nem de me espatifar da queda livre. Mas o chão me atrai. Mais mesmo que sua gravidade obvia e inevitável. Também não é comodismo. Prefiro sempre a adaptação. Por isso o sucesso não me atrai. É preciso mante-lo. Ser invencível. Ter uma pela boa. Bons contatos. Negócios bem feitos. Mirar alto. Ser ambicioso. Não. Um tombo pequeno não me aleija. Um rosto feio evita olhares minuciosos de terceiros (ou os intensifica). Um grupo seleto me satisfaz (mesmo que por pouco tempo). Não disse quantos grupos seletos. Transito entre vários. Vários momentos.
Eu não cultivaria plantas que precisam de água e sol todos os dias, nem de animais que necessitam cuidados especiais. Eu não me casaria com seres humanos, porque eles interfeririam o meu cotidiano e esse é cheio de pequenos cuidados com tudo aquilo que eu não me responsabilizo em ser meu. Porque a posse é algo absurdamente chato e limitador.
Ainda não encontrei a paz em mim mesmo. Dizem que leva anos, mas não tenho a paciência. A saída é me encontrar nela eu mesmo.
Os níveis da minha audição estão baixos. Tenho a desconfortável sensação de estar debaixo d’água. Ouço os ruídos mais distantes. O ar pesado só sai de uma narina. A direita. As mucosas nos seios da minha face atrapalham a circulação do ar. Do ar reciclado. Do ar reciclado que os outros também respiram. Do ar respirado pelos outros. Pelos outros desconhecidos. Com suas próprias doenças desconhecidas.
O sistema respiratório está falido. Insisto em falir eu mesmo. Continuo a fazer fumaça internamente. Os ouvidos não estalam mais. Estão entupidos. Parados. Esta é a real.
A realidade cumpre a promessa dela mesma. Porque importa, porque registra nossa maneira de viver, porque às vezes basta. Não digo que basta para o bem ou para o mal. Apenas que simplesmente a realidade às vezes é o suficiente. Suficiente para respirar, ouvir, comer, abraçar, violentar, pensar, sonhar, sentir, viver e morrer.
Tenho certo apego ao fracasso. Não acredito ser algo ruim. Depende do ponto de vista de quem tem sucesso. Não quero para mim o que um verdadeiro perdedor tem como recompensas. Sinto que desistir é um fetiche. A glória que existe em um fracasso verdadeiro chama minha atenção. Os fracassados têm um charme único. O brilho de um vencedor é muito irritante. Ofusca minha visão. A altura do pódio é altíssima. E eu não tenho medo de altura. Nem de me espatifar da queda livre. Mas o chão me atrai. Mais mesmo que sua gravidade obvia e inevitável. Também não é comodismo. Prefiro sempre a adaptação. Por isso o sucesso não me atrai. É preciso mante-lo. Ser invencível. Ter uma pela boa. Bons contatos. Negócios bem feitos. Mirar alto. Ser ambicioso. Não. Um tombo pequeno não me aleija. Um rosto feio evita olhares minuciosos de terceiros (ou os intensifica). Um grupo seleto me satisfaz (mesmo que por pouco tempo). Não disse quantos grupos seletos. Transito entre vários. Vários momentos.
Eu não cultivaria plantas que precisam de água e sol todos os dias, nem de animais que necessitam cuidados especiais. Eu não me casaria com seres humanos, porque eles interfeririam o meu cotidiano e esse é cheio de pequenos cuidados com tudo aquilo que eu não me responsabilizo em ser meu. Porque a posse é algo absurdamente chato e limitador.
29.12.16
Season Finale X
Anteriormente em Season Finale...
Não há muito o que descrever. O dano está feito. Ela veio calma e silenciosa conforme o esperado.
É o Fim de uma totalidade.
Qual o valor de uma ausência e o peso de uma presença? Vai demorar até que eu possa sorrir de forma sincera novamente. Somente a melancolia permite a aceitação da morte e a continuidade da vida.
Enquanto espero que tudo isso termine logo percebo que na maioria das vezes não sou inerte aos acontecimento. Ao contrário, na maior parte do tempo sou selvagem. Apenas respiro. As coisas vão mudar, mas sempre via alguma violência. A violência do tempo, muitas vezes. Contamos ansiosos pelos dias da liberdade. A expansão do concreto e da fumaça oferece uma infinita expansão da decadência enquanto esperamos. É opressor, é alienante. Ameaçador, sadístico e eu quero tudo isso. O dano está feito.
Ando pelas ruas lotadas de um centro de cidade.
Reparo que as pessoas parecem com a minha alma e com a palavra "melancolia".
Às vezes podemos ouvir a vibração da luz. Como um barulho de repente no meio da alienação.
Nós todos lutamos, amamos, trepamos, rimos, choramos e na maioria das vezes estes intensos momentos ou pensamentos ou emoções acontecem no mais banais dos lugares.
Somos as vítimas da fatalidade, não há esperança para nenhum de nós, mas se existir, ainda que nos deixe dar um último grito, um terrível uivo de agonia, um berro desafiador, apenas talvez um choro numa batalha. Chega de sofrer. Deixem os mortos enterrarem os mortos. E nós, os vivos, vamos dançar para celebrar uma última e agonizante dança, porém uma dança verdadeira.
Se alguém disse alguma coisa, desculpe. Não ouvi direito. Não tenho a mínima ideia para onde estou indo, mas eu sei que não está acontecendo pela última vez. Todas as noções dos meus movimentos são incertos. Nesta temporada eu passei pelo desconhecido novamente. Todas as pessoas alcançaram sinais de enigmas. Se eu alguma vez fiquei preocupado em me entregar à insanidade, foi aqui e agora. A imersão nos estigmas, nos objetos, nas visões... eu preciso disso. Nós precisamos e eu quero muito isso. Se eu em breve perder o controle, vou definitivamente ter a esperança em continuar a sorrir com meus fones de ouvido, como bêbados ou os idiotas. A ficção é a única saída.
Não resta nada. Agora quero pelo inesperado. Espero por algo que eu nunca vi antes.
Contra o progresso, a perenidade.
Contra a abstração, o concreto.
Contra a revolução, a tradição.
Contra a política, a metafísica.
Contra a natureza, uma estética.
Contra o igualitarismo, a hierarquização.
Contra fantasmas, os espectros.
Contra o ceticismo, a fé.
Contra a arquitetura, a música.
Contra a visão, a fotografia.
Contra a morte, a vida.
Continua...
Não há muito o que descrever. O dano está feito. Ela veio calma e silenciosa conforme o esperado.
É o Fim de uma totalidade.
Qual o valor de uma ausência e o peso de uma presença? Vai demorar até que eu possa sorrir de forma sincera novamente. Somente a melancolia permite a aceitação da morte e a continuidade da vida.
Enquanto espero que tudo isso termine logo percebo que na maioria das vezes não sou inerte aos acontecimento. Ao contrário, na maior parte do tempo sou selvagem. Apenas respiro. As coisas vão mudar, mas sempre via alguma violência. A violência do tempo, muitas vezes. Contamos ansiosos pelos dias da liberdade. A expansão do concreto e da fumaça oferece uma infinita expansão da decadência enquanto esperamos. É opressor, é alienante. Ameaçador, sadístico e eu quero tudo isso. O dano está feito.
Ando pelas ruas lotadas de um centro de cidade.
Reparo que as pessoas parecem com a minha alma e com a palavra "melancolia".
Às vezes podemos ouvir a vibração da luz. Como um barulho de repente no meio da alienação.
Nós todos lutamos, amamos, trepamos, rimos, choramos e na maioria das vezes estes intensos momentos ou pensamentos ou emoções acontecem no mais banais dos lugares.
Somos as vítimas da fatalidade, não há esperança para nenhum de nós, mas se existir, ainda que nos deixe dar um último grito, um terrível uivo de agonia, um berro desafiador, apenas talvez um choro numa batalha. Chega de sofrer. Deixem os mortos enterrarem os mortos. E nós, os vivos, vamos dançar para celebrar uma última e agonizante dança, porém uma dança verdadeira.
Se alguém disse alguma coisa, desculpe. Não ouvi direito. Não tenho a mínima ideia para onde estou indo, mas eu sei que não está acontecendo pela última vez. Todas as noções dos meus movimentos são incertos. Nesta temporada eu passei pelo desconhecido novamente. Todas as pessoas alcançaram sinais de enigmas. Se eu alguma vez fiquei preocupado em me entregar à insanidade, foi aqui e agora. A imersão nos estigmas, nos objetos, nas visões... eu preciso disso. Nós precisamos e eu quero muito isso. Se eu em breve perder o controle, vou definitivamente ter a esperança em continuar a sorrir com meus fones de ouvido, como bêbados ou os idiotas. A ficção é a única saída.
Não resta nada. Agora quero pelo inesperado. Espero por algo que eu nunca vi antes.
Contra o progresso, a perenidade.
Contra a abstração, o concreto.
Contra a revolução, a tradição.
Contra a política, a metafísica.
Contra a natureza, uma estética.
Contra o igualitarismo, a hierarquização.
Contra fantasmas, os espectros.
Contra o ceticismo, a fé.
Contra a arquitetura, a música.
Contra a visão, a fotografia.
Contra a morte, a vida.
Continua...
5.9.16
Não é o que você diz, mas como diz
De que me serve fugir se não posso viver com um nome pesado demais ou terrivelmente leve; se não posso deixar de sentir um peso em meu peito e um vazio em minha alma; se sou incapaz de cruzar a rua e gritar que estou vivo; se, por mais que eu me esforce, sempre desejarei ser outra pessoa com qualquer outra vida. Como gritar no ouvido do mundo que estou apaixonado pelo nada?
Branca de Neve corria nua por uma floresta repleta de paradoxos. Alice se submergia em um mar de lágrimas e fantasias. Dorothy caminhava no vermelho sobre os caminhos amarelos da cidade Esmeralda. A virilidade do belo Príncipe encarcerou o monstro esguio.
Como sussurrar ao mundo que as crianças já não são mais crianças; que não queremos coroas, espadas, um cavalo branco, uma fada madrinha e nem um duelo mortal? Muito menos queremos uma passagem de ida ao país dos sonhos, onde as maravilhas não contêm um apartamento com varanda, carro zero e nem violência de gênero. E ainda pareça que não te quero, a realidade não poderia ser mais distante. Quero que acaricie meu céu e consuma meu inferno. Quero te declarar a guerra porque quero conquistar os teus latidos, ainda que esta noite o mar tenha hasteado uma bandeira de perigo. Mas quero que quando os cadáveres, silenciosos e sonolentos, que jazem sobre os restos de uma banheira de hidromassagem, não me peçam para que eu mude, não exigem que eu seja sincero. Me chame, se assim me deseja, me chame de serpente, porque sei que cabeças vão rolar, porque sei o que sente. Como te mostrar que não é o que você diz, mas como diz? Não consigo saber como te contar que os nomes carregam histórias e que as lendas nos nutrem de sonhos. Que as princesas já não querem cavalheiros porque eles preferem se matar com dos dragões.; que os meninas encontraram seus rostos ocultos caminhando sozinhas pela floresta e que já não mais temem o lobo, porque quero saber que já mais coisas além do labirinto, do País das Maravilhas, porque queremos ser a Rainha de Copas.
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