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31.12.20

Season Finale XIV

Anteriormente em Season Finale...






















Como sabemos que o fim chegou?
É o aviso de uma doença terminal? Quanto tempo temos?
Essa é a beleza do fim. Sua surpresa. Vêm sem aviso. "O começo do fim". Isso não existe.

Se na temporada anterior eu saí de uma caverna escura e claustrofóbica para perder a conta de quantas estrelas existem e existiram, neste ano eu fitei o infinito - em sua beleza cósmica.


O infinito finito. Não temos noção de sua grandeza, seu fim, seu começo. Que belo paradoxo. Mas sabemos que terá um fim pois a expansão termina assim. Mas não estaremos aqui. Nem eu, nem você, nenhum ser humano. Um final sem testemunhas. Como é hoje. Sabemos apenas do fim. Que ele vem. De resto, nada sabemos. Escuridão e nada. Universo. Espaço. Sem calor, sem energia. Sem testemunhas. Portanto, já estamos finalizados. Já estamos no fim. Cada um em seu particular derradeiro último suspiro sem aviso.


Foi uma temporada de muitos fins - cada indivíduo experimentando o seu próprio de alguma forma. Com surpresa e sem aviso, muitos terminaram. E eu, novamente, na companhia de um final. Uma amizade que agora só existe comigo e de quem permanece como testemunha. Evaporando de existência à lembrança em questão de segundos. O tempo necessário para finalizar. É assim que termina? Foi assim que terminou.


Eu sei que terminou. Mas ao mesmo tempo, reluto e duvido. Ainda nos imagino tomando um café charmoso na entrada de um museu. Compartilhando momentos e registrando-os em RGB. Depois você me pediria este registro em preto e branco. Eu gostaria que você estivesse por aqui. Gostaria de contar com sua presença a uma mensagem em áudio de distância.


Ficaram as lembranças, a memória, os aprendizados e as outras amizades que conectamos durante um breve espaço de tempo. Nossas coleções compartilhadas, nossos laços invisíveis, nossas risadas descontroladas, nossas autodestruições, nossos venenos, nossos pensamentos freaks, mas com amor. Sempre com amor. O seu amor, terminou. Eu sei que terminou. Mas o meu amor por você estará comigo até o meu fim.

Não foi uma temporada com finais apenas. Um começo novo foi fundamental. Um novo amor compartilhado. Leve e intenso. Divertido, despretensioso. Novos sorrisos.


E eu me renovei. E de novo, voltando a mim mesmo. E de novo, estava perto de mim, só eu não enxergava. Dessas coisas irônicas da vida. Uma parte de mim, aquela esquecida, se renovou. Outras, claro, se mantêm firmes. O objetivo continua o mesmo – não fazer mal a ninguém. O sonho de ter uma alma livre de apegos desnecessários também. O foco, a caridade e o aprendizado. Contudo, o desejo agora é estar dentro de um abraço. O sentimento se renovou de tal forma, que a leveza é insustentável.


Continua…


31.12.19

Season Finale XIII

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Quantas estrelas se apagaram nos últimos 10 anos? Quantas estrelas se apagaram desde que olhei o céu pela última vez?

Há 10 anos entrei numa caverna. Convivi com monstros e fantasmas só para depois de muito tempo perceber que eram reflexos infinitos de uma solidão que não parecia ter fim. Pois então, estava sozinho nesta caverna. E a cada temporada que passava, mais eu me aprofundava no labirinto que eu mesmo criei. Nem lembrava mais da existência das estrelas. Apenas fitava o teto rochoso e escuro que me observava também.

E nos últimos 2 anos perdi um pedaço da vida. Não da minha própria, mas de alguém que sempre esteve do lado de fora. E foi preciso essa perda para eu perceber que eu realmente tinha perdido muito mais que um pedaço. Finalmente estava desaparecendo por completo.

E comecei a derreter. Gota a gota a caverna foi se completando. Soterrado em mim mesmo, sem fôlego e sem forças, fechei meus olhos e quando abri já não estava mais na caverna. A saída sem saída não se revelou com luz ou mensagens para seguir adiante. Eu agora estava num quarto escuro. No breu, tateando por um caminho desconhecido sem saber o que era chão, degrau, parede, eu avançava sem parar. Guiado apenas pelas batidas do meu coração.

Queria experimentar e conhecer.

E conheci. Conheci você, que me quis como eu sou. Mas sou incrédulo e sonhador. Depois te desconheci. Na esperança, o gostar reduz. Na frustração, o gostar acaba. E você se foi. E a saída da caverna é lenta. Nada ainda.

Eu sou o meu outro. Sou meu reflexo. Existo a partir das minhas experiências. Parece que existe algo que pode se desdobrar em minha mente. Que ainda pode me marcar. Mais profundamente. Basta existir para ser completo.

E finalmente a saída. E o lado de fora era algo que eu só ouvia pela boca dos outros e não acreditava. Eu era o lado de fora. Saí em mim mesmo. Um dentro do outro, do lado de fora. As possibilidades são infinitas e finalmente vivo o meu empirismo, meu hedonismo e minha adaptação. Um lobo selvagem avançou para cima de mim, se transformou em energia azul e entrou no meu peito. A forma como me enxergo é o jeito como também olho pro mundo.

Um vento fraco se transforma em ventania e assume a forma de uma tempestade à luz fraca e quieta durante um milagre perfeito. A minha realidade com um sabor que parece mel. E ao mesmo tempo que dura um nada eterno, eu sinto os toques, os cheiros, os sabores, os sentidos de uma dança rápida e lenta de alguém que conhecia e dos alguéns que vou conhecer. Se da primeira vez eu senti demais, da segunda, espero sentir o dobro. Sentir como eu sou. Um grande delírio sem a necessidade de febre, uma dança sem coreografia e sem protocolos.

Enquanto o mundo pega fogo lá fora, eu por dentro sou o coro dos pássaros ao amanhecer deslumbrado com a quantidade de estrelas que ainda existem e maravilhado pela luz das que se foram.

Continua...

31.12.18

Season Finale XII

Muitas vezes um passo para a frente não pode ser desfeito. Muitas vezes um passo para a frente significa seis passos para trás. E aí, como você dorme? E aí, como você vive? Como todo mundo vive? Essa é a sombra de pensamento que me acompanha. Como todos podem estar sorrindo? Eles não estão vendo ou vivendo o que estão na frente delas? E pernas não param quietas, e os pensamentos voam e o ar cessa e o peito dói. Eu realmente só queria andar meio desligado no meio da multidão. Dopado. Ou desligado sozinho no meu canto. E desta vez eu consegui. Mas eu não estou realmente sozinho. Posso estar, mas não estou. É complicado. Eu preciso tirar um retrato da minha cabeça. Analisar o que tem lá dentro. Pelo menos uma única tentativa antes de dar adeus a tudo que eu conheço. Como eu durmo? Com calor. Com frio. Com ansiedade. Com sede. Durmo lembrando dos momentos de embriaguez solitária em lugares desconhecidos. Durmo com vontade de repetir tudo isso e para sempre. Durmo ansioso querendo chegar logo aos sonhos e aos pesadelos. Durmo para chegar neste lugar descontrolado que é a minha imaginação. Meu "kumomi" dos sonhos aleatórios. Meus sonhos invertidos, onde o que está em cima, está lá embaixo e vice-versa. Porque o chão é azul e ele me faz rir. Espero conseguir o que preciso.

31.12.17

Season Finale XI

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Lembro que na temporada anterior eu clamei pelo inédito. Por algo que nunca tinha visto antes. E fui bem recompensado.

Visitei lugares inesperados e outros que já esperava há muito tempo. E foi tão familiar.

Pela primeira vez fiquei sozinho de verdade. Sou um ser solitário, mas sozinho foi a primeira vez. O que o futuro me reserva não foi do meu agrado. O que eu faria para mudar o que me espera?

Nada o que pode ser mudado, mas muito o que pode acontecer. Sou absolutamente um iniciante. Percebi isso nesta temporada ao me deparar com o inédito que sempre pedi aos céus.

Em sonhos eu sou levado ao reconforto. Tudo é do meu agrado, tudo é uma novidade e caso eu tenha algum problema ou os sonhos se transformem em pesadelos, eu acordo e está tudo certo.

Ou acordo para a realidade. A realidade sem controle. A realidade desigual e assustadora. A realidade da rotina. A realidade de elevador sem fim, que vai de andar em andar sem nada para acontecer. Subindo, descendo, qual a diferença?

Vou sonhar um dia que somente existirá minha imaginação. A única condição real é estar sozinho. Ontem me fiz de ridículo, mas isso não me afeta hoje, e pedi perdão. Esta tarde, embora ainda nada realmente aconteceu, fui andar por aí e fiz retratos anônimos. Finalmente veio a noite e acendi a luz. Finalmente, um dia de calma inventada!

Eu já ouvi esse som antes. Esta voz. Eu nunca a ouvi na minha casa. Nunca a escutei no meu quarto. Esta voz pertence a lá fora. Nas ruas. A voz me carrega para fora. A voz sem um rosto. Somente a voz. E ela penetra em meus ouvidos. Descendo até minha garganta. Eu a sinto enfraquecendo meu estômago. E então, o silêncio. E nada. E a escuridão. Eu sinto o chão nas minhas costas. Os fantasmas de março ainda estão aqui. E amanhã tudo se repetirá. Vamos todos torcer para que tudo isso termine logo.

Seria estes meus comentários mais lúcidos do que os outros?

Só o distante passado dirá quando o futuro do presente chegar. Quando o invisível se tornar visível. Quando esquecermos o passado sombrio, quando chegarmos a paz sublime. Para uma pessoa traumatizada. Há inúmeras pequenas coisas queimando dentro de mim. Se retorcendo para chegar à superfície. Um novo mundo está chamando um novo homem.

Continua...

29.12.16

Season Finale X

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Não há muito o que descrever. O dano está feito. Ela veio calma e silenciosa conforme o esperado.

É o Fim de uma totalidade.

Qual o valor de uma ausência e o peso de uma presença? Vai demorar até que eu possa sorrir de forma sincera novamente. Somente a melancolia permite a aceitação da morte e a continuidade da vida.

Enquanto espero que tudo isso termine logo percebo que na maioria das vezes não sou inerte aos acontecimento. Ao contrário, na maior parte do tempo sou selvagem. Apenas respiro. As coisas vão mudar, mas sempre via alguma violência. A violência do tempo, muitas vezes. Contamos ansiosos pelos dias da liberdade. A expansão do concreto e da fumaça oferece uma infinita expansão da decadência enquanto esperamos. É opressor, é alienante. Ameaçador, sadístico e eu quero tudo isso. O dano está feito.

Ando pelas ruas lotadas de um centro de cidade.
Reparo que as pessoas parecem com a minha alma e com a palavra "melancolia".
Às vezes podemos ouvir a vibração da luz. Como um barulho de repente no meio da alienação.
Nós todos lutamos, amamos, trepamos, rimos, choramos e na maioria das vezes estes intensos momentos ou pensamentos ou emoções acontecem no mais banais dos lugares.

Somos as vítimas da fatalidade, não há esperança para nenhum de nós, mas se existir, ainda que nos deixe dar um último grito, um terrível uivo de agonia, um berro desafiador, apenas talvez um choro numa batalha. Chega de sofrer. Deixem os mortos enterrarem os mortos. E nós, os vivos, vamos dançar para celebrar uma última e agonizante dança, porém uma dança verdadeira.

Se alguém disse alguma coisa, desculpe. Não ouvi direito. Não tenho a mínima ideia para onde estou indo, mas eu sei que não está acontecendo pela última vez. Todas as noções dos meus movimentos são incertos. Nesta temporada eu passei pelo desconhecido novamente. Todas as pessoas alcançaram sinais de enigmas. Se eu alguma vez fiquei preocupado em me entregar à insanidade, foi aqui e agora. A imersão nos estigmas, nos objetos, nas visões... eu preciso disso. Nós precisamos e eu quero muito isso. Se eu em breve perder o controle, vou definitivamente ter a esperança em continuar a sorrir com meus fones de ouvido, como bêbados ou os idiotas. A ficção é a única saída.

Não resta nada. Agora quero pelo inesperado. Espero por algo que eu nunca vi antes.

Contra o progresso, a perenidade.
Contra a abstração, o concreto.
Contra a revolução, a tradição.
Contra a política, a metafísica.
Contra a natureza, uma estética.
Contra o igualitarismo, a hierarquização.
Contra fantasmas, os espectros.
Contra o ceticismo, a fé.
Contra a arquitetura, a música.
Contra a visão, a fotografia.
Contra a morte, a vida.

Continua...

31.12.15

Season Finale IX

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E preparado continuei. Preparado para o que, afinal?

Não sei quantas foram as vezes que passei por esse caminho. A rua antes da ponte. Sem faróis para atrasar o percurso e chegar em casa. Penso que tudo é efêmero. Penso em nada e penso no tudo. Penso que tudo significa nada para mim. Me lembro de explicar o caminho para o motorista. Repeti para vários taxistas para entrar na segunda à esquerda, subir e entrar à direita, virar à esquerda, direita e lá na frente pegar a esquerda. Entre a direita e pode ir reto. Na frente daquele mesmo carro à direita pode parar. Um pouco mais pra frente. Naquela placa de "proibido estacionar". O motorista sempre sou eu, mesmo sem ter o volante nas minhas mãos, a direção eu tenho.

Entro e a luz acesa me esperar como sempre. De novo. A mesma luz que não deixa o passarinho engaiolado dormir. A lâmpada que aquece seu pequeno corpo é a mesma que o deixa irritado.

O barulho da porta pesada abrindo não acorda ninguém. Entro e não sei quantas centenas de vezes o vazio me aguardava. Silêncio. Silêncio e sede. Dou a volta, pulo o sofá, acendo mais luzes e vou ao banheiro tirar as lentes. Meus óculos pesados e sujos me esperam também. Entro na caverna, meu mundo. Bebo da minha garrafa d'água. Tiro a roupa da rua e visto minhas roupas claras e confortáveis.

Quantas foram as centenas de vezes que repeti isso? E até quando irei repetir? Talvez mude o local, mas a companhia será a mesma. Eu. Um. Um é o número mais solitário que já existiu. Assim como a lua que não é só bonita, mas muito distante. Tudo que eu vejo retorna para mim de qualquer jeito. E se eu fugir hoje. Do que fugirei amanhã? A espera do que vem calmo e manso. Do fim. Por isso o susto é grande quando ele aparece. Ele segue seu próprio ritmo vivendo na nossa sombra.

Enquanto isso vivo essa noção que mistura verdades e auto-ilusões convenientes. Como uma propaganda. Viver uma banalidade que leva a nenhum significado maior. Algo especial submetido ao genérico. Agora a questão é se há uma estrada que leva para qualquer outro lugar... para qualquer horizonte perdido.

Eles nos disseram para focar no horizonte perdido. Mas nunca nos disseram o que o foco é. Só vejo distorções adiante - um sonho terrível? Não me pergunte por quê. Sei somente que toda esperança começa e termina com um futuro melhor.

Dependendo do problema, a tarefa a ser resolvida é para encontrar qualquer solução (encontrar uma simples solução é o suficiente). Quando encontrar a solução, uma ou mais variáveis são designadas como desconhecidas. Desconhecidas como o coração que do nada começa a bater lentamente a noite deixando minha mente à deriva e imaginando se o tempo se move em diferentes lados.

Somos todos produtos de nossas escolhas e perdas que fazemos. E como todos os produtos, estamos sempre vendendo algo. Seja uma aparência, um caminho, um amor, uma decisão, um ponto de vista, algo que nossas almas feridas e gastas precisam. E essas cicatrizes mais profundas são aquelas que não podemos ver. Nós conquistamos objetivos e mesmo assim nossa vida não parece do jeito que imaginávamos que seria. "Isso é tudo o que existe?" Sim. Pode ser a resposta no final. Nós nunca mudamos, só nos adaptamos, só flutuamos neste rio, neste mesmo caminho de sempre com novidades apáticas que aparecem para apaziguar o desespero: um emprego novo, mais dinheiro, novas amizades. Nós nunca mudamos, só nos adaptamos.

Nós só gostamos dos começos das coisas. Quando nos focamos no começo não precisamos considerar os finais: aqueles do passado e aqueles que ainda virão. Em vez disso, nós dedicamos nossa energia para um potencial futuro desconhecido.

E qual é a previsão para o futuro desconhecido? Não importa o quão fervorosamente você acredite, todo mundo tem que jogar junto... E "você não precisa de um meteorologista para saber qual direção o vento sopra".

Se você fugir hoje, do que fugirá amanhã? Levante-se e abra os olhos para as vidas que tivemos, as vidas que ainda vamos ter. Levante-se e encare um novo dia. Novas ideias. Levante-se e seja um novo você.

Continua...

31.12.14

Season Finale VIII

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No ano retrasado me desencontrei. No ano passado fiquei comigo. E neste ano...

E no espelho encontrei algo que não esperava encontrar... Encontrei eu mesmo. Assustado, estarrecido, cansado. Não conseguia desviar do meu próprio olhar. Posso me ouvir preso atrás do espelho. Um doppelganger respirando pesadamente em fúria. Se fizer silêncio consegue ouvir o monstro respirar.

No começo fui levado ao encanto do olhar monstruoso. Queria ir de encontro a ele e deixar ser dominado. Tive noites extremas num mar de bebidas. Noites acordadas entre bares – tentar esquecer a pressão dos dias. Mas o monstro não queria dominar. Ele queria coexistir. Ele quer. Por que tudo é tão nebuloso?

Reinamos juntos neste ano. Como um Rei de Copas: emocionalmente endurecido, dores privadas, emocionalmente indisponível, perdido no amor (dos outros e no próprio), emocionalmente arrogante, excessivamente emocional.

Este Rei pode ter seus sentimentos tão difíceis que ele os esconde. Até dele mesmo. Melódico, é um antagonista. Uma paranoia sussurrando para mim; uma voz atrás da minha cabeça me dizendo que as coisas não vão funcionar, fazendo decisões dolorosas e egoístas. E eu somente encarava do outro lado do espelho. Sou o diretor observando o ensaio.

E a Roda da Fortuna e seus pentáculos nos lembra que mudanças são inevitáveis. Não importa como as coisas são agora, elas não vão ficar assim para sempre. Mais do que nunca, preciso me adaptar.

Não temos sempre o controle sobre o que a vida coloca no nosso caminho, mas podemos decidir como nós respondemos a isso. Precisamos ser flexíveis e adaptarmos, irmos com a correnteza. Seja ela o acaso ou o destino.

Como um malabarista, na vida precisamos as vezes manter mais de uma bola no ar. Nada parece certo e ficamos incapazes de imaginar melhores possibilidades para nosso futuro. A vida é muito estranha...

E cansamos de tudo e nos deitamos neste campo vazio para não fazer nada e esperar quando tudo for maravilhoso – festejar numa parada – uma bela desculpa para celebrar a bagunça que fizemos.

E eu posso sentir a diferença quando o dia começa, “este vai ser o ano em que venceremos” e começamos novamente, antes das lembranças das bagunças que fizemos.

Memórias se apagam e histórias podem mudar, mas são reais se vistas em fotografias. Vendo somente o que eu sinto. E parando o tempo das pessoas que não conheço. Deixando elas em preto e branco. Tristes, felizes, cansadas, sonhadoras, alegres. Se tivesse um som seria a batida de uma bateria. Meu coração é uma bateria, marcando o tempo com todo mundo.

Descobri que os desejos são fantasmas do passado. Desejos que precisam de muito para sobreviverem. Mas os meus morreram. E outros vão nascer.

Nascer nesta que é a minha arte de cair constantemente. E levantar (ou tentar pelo menos). E ficar quieto. E observar. Bom dia, boa tarde e boa noite do meu lado mais analógico (monstruoso). As coisas menos importantes são mais fáceis de serem ditas. Fácil como veio, fácil como foi. Ocasionando entre o orgânico e o mecânico, entre o ligado e o desligado, entre os parasitas e os acolhedores, ocasionando entre os rostos que nos importamos, entre danças inacabadas. E se elas não tem fim, torcemos para que tudo isso termine logo, pois pensar em algo diferente que eu não sei o que é, é cansativo. Se você acha que está indo bem, como pode ter tanta certeza? Não é difícil, apenas frágil. Em sua própria maneira estranha. Nunca sei da minha própria força - apenas carregado pelas pessoas ao meu redor. Não sei de onde vem, só sei que por um minuto me perdi. Misturo texturas, batidas, passado, presente e deixo o futuro incerto.

Sou banhado por uma luz azul. Uma penumbra índigo em cima de um palco. E os espectadores querem ouvir apenas uma única palavra. As vezes tudo que precisamos falar pode ser dito com apenas uma palavra. Ou as vezes precisamos de muita música. Retrogrado, lágrima, esquecer? Pontes, café, tremor, lembrança, prelúdio? E amanha você pode cantar no paraíso. Numa primavera sem flores, num outono sem folhas, num inverno sem chuvas, num verão sem o sol. E são adaptações. Fico surpreso em como o fogo transforma a nicotina em fumaça para que seja preenchida nos meus pulmões o que depois vai virar um câncer. E no final, não importa se você se queimar ou desaparecer. O importante é se transformar em algo. E eu preciso me transformar em algo que eu preciso.

Mas tudo está oculto nas razões. Mesmo se permanecer em silêncio é preciso ouvir a última chamada, mesmo que seja um grito ou um sussurro. Eu mesmo vou dizer, mesmo com medo de que tudo já tenha sido feito ou dito. Pois tudo que é externo não é nada mais do que um reflexo projetado pela máquina mental.

Só preciso do vento para soprar, do fogo para queimar, da água para lavar e da terra para assentar; com isso posso desaparecer por completo. Me sinto preparado.

Continua...

31.12.13

Season Finale VII



Fantasmas e Reflexos

Ano passado passei por uma descontrução e desencontro pessoal.

Vai ver não estou quebrado. Vai ser sou assim mesmo...

Se na temporada anterior me desencontrei comigo, nesta que termina agora fui de encontro com uma pessoa inesperada. Meu reflexo. Encontrei nas pessoas que fotografo meu próprio reflexo, um espaço para me encaixar. Todos são fotografáveis, mas poucos se destacam na multidão.

Onde estou agora? Com quem estou? E  para onde estamos indo? Vou me perder. Quero me perder de mim mesmo, mas isso só faz com que eu acabe entrando mais ainda nesta caverna já tão conhecida por mim. Apesar de escura, aprendi a conhecer cada detalhe da parede cavernosa. A maioria dos detalhes me assustam. Outros me observam e eu fico paralisado sem ar encarando a escuridão. Fui eu que mudei? Se não fui eu, então foi essa caverna...

Fiquei doente na caverna. Tive várias doenças e dores memoráveis. Paixões se transformaram em dores. Carinhos invisíveis. Carinhos imaginários. Carinhos platônicos que só eu sentia. E quando terminavam, os fantasmas carinhosos gelavam meu corpo por onde tinham passado. Interrompi esta dor/paixão mais uma vez – com uma experiência de cirurgião. Consegui superar? Nada ainda.

E a caverna foi se fechando. E outra dor surgiu... foi aparecendo devagar, rastejando até se enrolar no meu corpo e me sufocar: a dor do tempo.

Olhava para trás e vi reflexos de reflexos de reflexos infinitos. Nada mudou. Nada muda. E essa dor não tem cura. Preciso aprender que é o melhor remédio. Nada ainda.

Um pensamento intocável virou dor. O pensamento da rejeição antes mesmo de eu nascer. Por isso sou assim? Quantos “talvez” para responder esta pergunta? Nada ainda.

E como controlo o tempo? Meu tempo. O tempo dos outros? Não controlo, mas consigo faze-lo parar. Coleciono centenas de instantes que enxergo por onde ando. E andei. Andei sozinho em lugares desconhecidos. Fiz uma viagem pelo conhecimento de outros lugares. E foi um sonho do qual acordei. Nada ainda.

Dentro da caverna vi meu rosto. E reconheci o reflexo. Nossos olhos se fixaram. Passei meu olhar pelas formas da minha feição. Prestei atenção em todos os detalhes. Em todas as marcas que o breve tempo marcou. Foi assim que me reconheci. Foi assim que doeu novamente. Nada ainda.

E então veio o passado amargo de todos os Agostos. Escrevi antes de dormir que eu tenho certeza de que posso me matar. Também escrevi que o amor e a morte são as minhas únicas saídas. Também escrevi que espero ser encontrado. Como vida em outro planeta. Também escrevi que estou a procura de paixões para adiar a minha própria morte. Escrevi também que quero compartilhar minha solidão. Nada ainda.

E minha caverna deformada ficou menor. E para chegar no Paraíso, algo de terrível tem que acontecer.

Minha solidão conformada e acostumada estava me machucando fisicamente. E a morte da jovem Roberta questionou mais ainda minha própria mortalidade. Eu estava tão frio quanto ela durante seu velório e enterro. Observei de longe. Abracei fortemente a mãe dela e não disse nenhuma palavra. As lágrimas dela molharam minha camisa. Não me importei. Fui atingido pela morte. A dela e a minha. Senti. Uma sensação de entrega. Resolvi me entregar. Resolvi viver mais. Decidi me importar. Com a minha própria vida. Minha própria mortalidade. Perder tudo significa também ter a liberdade de se escolher o que vem a seguir, sem o peso esmagador das expectativas. Basta pular ou ser empurrado. Olhei para a caverna deformada e nela falta, acima de tudo, o empirismo que eu tanto exijo. Queria experimentar e conhecer. 

E conheci. Conheci você, que me quis como eu sou. Mas sou incrédulo e sonhador. Depois te desconheci. Na esperança, o gostar reduz. Na frustração, o gostar acaba. E você se foi. E a saída da caverna é lenta. Nada ainda.

Eu sou o meu outro. Sou meu reflexo. Existo a partir das minhas experiências. Parece que existe algo que pode se desdobrar em minha mente. Que ainda pode me marcar. Mais profundamente. Basta existir para ser completo. Nada ainda.

Instabilidade e incerteza provocam mudanças, mas depois de um tempo tudo pode ficar cansativo e você pode querer estar firmemente onde sempre esteve. Tudo entorpece com o tempo, tudo se torna menos pessoal. Estamos eternamente condenados a ficar sem.

E se nos falta algo, somos incompletos. Se perdemos algo, somos perdidos. Vulneráveis contra perigos e paixões reais e imaginários. E se não faz sentido, tudo bem... Quem precisa disso? Vai ver é assim mesmo.

A ideia da repetição do reflexo assombra ela mesma e se relaciona com as ideias de experiências e pensamentos. O que é perdido são as partes de nós mesmos que esquecemos ou escolhemos esquecer, o que é lamentável são nossos arrependimentos e os nossos limites pessoais impossíveis nos definem.

Tudo o que nos acontece torna-se distante de nós e quando olhamos o reflexo de nossa vida, percebemos que as coisas que queremos esconder na caverna nos fazem ser o que somos. Como então posso desistir do fantasma da caverna ou ir além destes pensamentos e experiências que almejo se eles são partes de mim?

É a ironia e a verdade, meu eterno paradoxo: vivo na caverna e tenho este espaço para preencher a fim de seguir em frente. E embora eu seja a mesma pessoa que era quando entrei na caverna pela primeira vez, evoluí através de minhas experiências e reflexões. Tudo ainda há de vir.

E que eu comece a dançar com dois sorrisos diferentes no rosto. Que eu sorria enquanto estiver indo para casa. Juntando pedaços de amor, sonhos e canções diariamente. Canções que eu consiga dividir com meus homens e mulheres loucos. Que alguém cante para eu dormir. Que a escuridão e o barulho branco preencham minha caverna. Que eu não dê a mínima para o por do sol. Que um dia eu sinta os anéis de Saturno nos meus dedos – que o amor venha do acaso, de forma aleatória. Que eu rasgue o que um dia eu costurei, sorrindo e de olhos fechados e sem propósitos. Que eu me perca fora do espaço e do tempo e não me pergunte onde estou. Que eu me liberte do meu reflexo e desapareça como um fantasma. Nada ainda.

To be continued...


“O resto pertence à vida e à ausência de vida”
Henry Miller

“Há conhecimento da consciência. Ela se vê de um lado ao outro, tranquila e vazia entre as paredes, libertada do homem que a habitava, monstruosa, porque não é ninguém.”
Jean-Paul Sartre


31.12.12

Season Finale VI

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Deconstruções. Vida não segue roteiro, mas sim o acaso.

Preenchimento automático. Uma vida vazia é uma vida desperdiçada. É possível surgir coisas a partir do nada. Não é isso o que pensam os físicos?

O lado bom de não ter uma janela aberta na sua frente é que você pode imaginar o que se passa do outro lado da parede. Quando você imagina as milhares de posibilidades, tudo fica permitido e nada é realmente verdadeiro. Pode se fazer tudo.

Com uma pequena ajudinha dos meus amigos, um ano sem paixões se transformou num ano de posibilidades e mais experiências foram realizadas. Um vento idiota e otimista se confronta com você e te leva adiante.

Apesar de às vezes nos sentirmos sozinhos, a distância e a saudade dos melhores amigos são quebradas pelas lembranças boas e momentos registrados em RGB. E eu sonhei que vi meus amigos. Não preciso deles. Eu preciso deles.

E onde vocês estavam, meus amigos? Acho que as pessoas não conseguem me encontrar.

Fui até lá encontrá-los e algo incrível aconteceu. Acabei me desencontrando comigo mesmo.

Alguns momentos te definem e outros te descontroem.

“E o que seus olhos verdes viram?”

Vi uma janela significativa e a maior que já vi.
Eu vi uma casa acolhedora e quente no dia mais frio do ano.
Eu vi tetos abertos e paredes em pé. Destroços reais que me marcaram.
Eu vi dez mil assentos vazios e ninguém para ocupá-los.
Eu vi sujeira misturada com beleza. E quase ninguém viu.
Eu vi escrituras em paredes nada sagradas.
Eu vi expressões humanas solitárias em buracos escondidos.
Vi pelas pequenas aberturas das portas, uma percepção gigante que ainda assombra minha mente.
Eu vi homens e mulheres abraçados. E homens e homens. E mulheres e mulheres. E crianças e crianças. E o sexo.
Eu vi uma irmã com um sorriso triste.
Vi pessoas parecidas com salgados de boteco.
Eu vi uma sala com mil histórias.
Eu vi espelhos antigos e embaçados. Não sei quem era no reflexo.
Vi uma entrada para coletivos.
Eu vi uma boca escura com bafo quente. E muitos entravam por ela. E seus corpos ficavam lá dentro e somente seus espíritos saíam. Feridos no amor. Feridos no ódio.
Eu vi uma sala de cinema com uma tela escura. E o filme se passava na platéia.
Eu vi uma viagem. Eu vi uma ideia. Eu vi um lugar. Eu vi uma vida. Eu vi um passeio. Eu vi um trabalho. Eu vi um reencontro. Eu vi um encontro. Eu me perdi. Eu vi uma mudança.
Eu vi homens bebendo juntos na paz de mais de 2190 cervejas.
Eu vi espelhos reais em banheiros nojentos.
Eu vi o olhar penetrante de um assassino.
Eu vi doentes terminais jogando a vida.
Eu vi perdidos na indiferença com vícios incontáveis.
Eu vi uma casa escura, clara, sem sol, iluminada, quente e fria e viva e morta.
E foi um frio forte, e foi um frio muito forte que passou. No corpo e na alma.

Do sim ao não, quantos talvez? “Não se preocupe, somos feios, mas nós temos a música.” – eu responderia se você me perguntasse.

E tudo se registra no meu olhar eletrônico: figuras da cidade, perdidos calçados, passageiros da rotina, arquitetura proposital, prostitutas nas paredes, números afogados, tudo são minhas obsessões da memória que vai se perdendo num lugar escuro e inabitável. Tudo precisa ser registrado e marcado para não ser esquecido. Motivos e significados que num futuro próximo vão parecer sonhos dentro de sonhos. Basta olhar para longe para se sentir perto.

Do que se passou, uma pequena coisa: era hora de fingir as boas vibrações que emanavam do céu cinza e chuvoso de abril. A companhia da rotina mais uma vez se fez presente nas semanas de trabalho – para que eu não possa viver eternamente e ficar tão cansado o bastante para não pensar em nada. Mas não entre em pânico, continue vivo e cante para você mesmo canções de ninar… Este é só o acaso, primo da coincidência. E no fim do seu próprio mundo, você flutuará pelo espaço confortavelmente dopado. 

Venha me visitar logo… Com certeza é solitário viver aqui na lua.

31.12.11

Season Finale V

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Shuffles of Life



Sobre o tempo e conviver com si mesmo (uma parte)


Finalmente fiquei sozinho. Porta fechada, silêncio, luz fraca ou escuridão completa. Finalmente estou sozinho.

Mais confusa que é a ideia de ter duas personas, é ainda mais confusa a adaptação em uma só.

Como o tempo não existe, eu podia imaginá-lo como bem quisesse. E aparentemente eu tinha dois tempos e dois espaços: um com amigos, colegas de trabalho e fora de casa e outro com minha família, dentro de casa.

Comecei a perceber que um dos tempos ou espaços ou lados ou personas estava sumindo. Mas isso era falso. Inconscientemente eu estava me adaptando numa só pessoa (finalmente?). "Finalmente" estava ficando sozinho. Comigo mesmo. O que eu poderia ver se acaso eu me afastasse de mim mesmo?

O signo para isso tudo foi o fato de eu ter voltado para o meu próprio quarto, um refúgio do mundo de fora, mas não do mundo de dentro. Meu próprio castelo. Com os pensamentos solitários, os momentos egoístas (só meus), as crises infinitas, costumeiras e melancólicas, sem completo entendimento (e não dá para explicar o que não quer ser explicado).

E esse foi o começo da minha metamorfose. E o relógio começa a andar mais rápido. E o tempo vem surgindo para quem não acreditava nele. E você se flagra chorando lendo cartas antigas. E você está atrasado.

Então o alarme toca e acordar cedo é uma tortura. Um suspiro pesado e um peso nas costas lodo de manhã. O processo da rotina é tenebroso! Trabalhar até o dia acabar e depois ir para a cama exausto. Dias longos e noites curtas. Sorrir e acenar, fingir que tudo está bem. Idiota o bastante para quase ser alguém. Acabei por odiar o que é preciso nesse mundo, essa imitação de vida.

A rotina passou atropelando e levou minha criatividade para bem longe. Ainda não a recuperei. Não distingo mais o paraíso do inferno, o azul do verde ou o conforto da mudança.

Tive que tomar decisões importantes e decisivas que implicaram em mudanças significativas. Acabei por odiar as grandes decisões que só me causam revisões e questionamentos sem fim.

Como na entrada de um metrô lotado, onde você é empurrado por forças maiores para dentro de um vagão de trem sem destino certo. E você não tem certeza se queria estar ali, mas acabou lá dentro. Feliz, triste, feliz de novo.

Exatamente, vivências solitárias, indivisíveis e curtas, sempre me lembrando para não esquecer de respirar mesmo dentro de um lugar abafado, cheio de gente, rostos infelizes, vidas passageiras e doentes, buscando uma saída para o lado de fora, com a esperança de que tudo termine logo e você encontre seus amigos queridos dançando em alguma floresta mágica e deserta.

Eles me obrigaram a fazer isso a partir das minhas próprias escolhas estranhas. "Vamos!", eles gritaram com olhares que esperavam respostas.

E você estava ali, pronto para tentar algo novo, pronto para emergir e brilhar, mais alto que o próprio sol, num momento de catarse falso, um outro sonho da meia noite. Um doce nada, enquanto você esperava, dançando no escuro com você mesmo, perguntando bem baixinho para onde você foi sem a sua própria companhia e se era isso mesmo que você queria…

Uma voz suave confirmava e dizia que o paraíso é um lugar onde nada acontece para mim, você e todos nós e que você deveria se apegar nas coisas que vão fazer você se sentir melhor. Você vai perceber o que é, vai perceber o momento perfeito e numa mudança constante, vai ter que se arriscar porque é o acaso quem manda.

O acaso pode trazer o trem mais adequado para você numa plataforma de confiança. Espere nos trilhos. Nem mesmo espere. Ele irá oferecer-se a você eventualmente, não pode fazer outra coisa. Este vazio é normal. Pegue numa mão imaginária e entre novamente com você mesmo, com seus pensamentos solitários, sem silêncio na sua cabeça, no seu castelo, a espera de outra metamorfose.

Assim falou o acaso.

Continua...

"Tenho uma boa intenção – qual, porém, é a intenção dos outros? Veremos em breve. Estar preparado, pronto, para suportar tudo o que a vida traz é uma tarefa evidente. Importante é avaliar, transformar o significado da experiência. Não sucumbir ao que foi deliberado."

Egon Schiele (1890 - 1918)

"E toda a verdade que não traga ao menos um riso nos pareça verdade falsa. E que todo o dia em que se não haja dançado, pelo menos uma vez, seja para nós perdido." Das Antigas e Das Novas Tábuas, Assim falou Zaratustra, por Friedrich Nietzsche

31.12.10

Season Finale IV

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"Quando a verdade se revela mentira, toda alegria interior se vai..."


De onde vem o azar, essa má sorte, a desgraça, os acontecimentos ruins, tudo que dá errado? De onde sai toda essa onda criativa de aborrecimentos? Alguém lá em cima ditando ordens com um sadismo sem fim? Uma linha mal feita na hora que desenharam nosso destino? Ou talvez um castigo por algo errado que cometemos? Acho que não. E se fosse uma simples ação com uma derradeira consequência? Alternativa realista, menos imaginativa.

Esse ano aceitei o mistério. Ou melhor: aceitei o acaso. Não há aparente explicação para esse inferno pessoal que foi essa temporada. Entre amigos, fizemos a piada que o ano foi de "Bad Karma" porque passamos a virada na Loca, uma casa noturna flopada. Realmente, a entrada de 2010 foi triste como o restante do ano seria: dois assaltos, uma doença, mais brigas familiares, falta de dinheiro, descontentamento no trabalho, uma paixão platônica e dolorida; engordei, entrei no terceiro dígito, roupas apertadas, ônibus molhando com a água suja das guias, sopro no coração, estresse, rotina sufocante, dezenas de noites mal dormidas pelo ronco da avó, mais discórdia na família, mais sufocos financeiros, mãe desempregada, poucas drogas, ausência de amigos, solidão constante versus o aumento de preguiça com as pessoas, projetos inacabados, planos que não decolaram, tédio, violência contida...

Não há explicação. Posso começar por qualquer ponto de partida.
Em 1987, uma jovem mulher em Goiania tomou um pouco mais de vinho na companhia de seu namorado dentro de um caminhão.
O acaso é o grande senhor de todas as coisas. A necessidade só vem depois, até meu último suspiro. Mas já sabem, se algum dia eu me sentir melhor, vou precisar de alguém, alguém para amar.

To be continued...

31.12.09

Season Finale III

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Música do Ano: Quixote Feat. Lisa Li-Lund - Before I Started To Dance

The House of Desabation

Antes de o ano começar, eu já tinha antecipado seu fim, o que o deixaria muito curto e sem grandes novidades, com aproximadamente três meses de duração. Fiz o mesmo com o mês de dezembro do ano passado e logo percebi que minha precipitação e afobamento para o fim estavam errados. No que eu errei tentando adivinhar o que viria em seguida, eu acertei em 2009 – mas ainda assim algumas surpresas me foram reservadas.
Logo no segundo mês, a séria já contava com um acontecimento que justificava o nome que iria perpetuar pelo longo do ano: a casa caiu.

A negligencia sobre meus vícios fizeram minha família descobrir os mesmo. Na adrenalina de não saber o que iria acontecer em seguida me peguei desprevenido e assustado, num desespero incomum e uma solidão verdadeira que preencheram um vazio há muito tempo conhecido.
A mudança por trás desse episódio foi sutil: agora me tratam de outra forma, com medo de uma possível recaída e eu voltei a ser para eles objeto de admiração, graças a minha habilidade de superar diversidades e conquistando objetivos medíocres. De modo vitorioso não deixei que minha máscara caísse e sigo vivendo independentemente em relação à herança cristã familiar que reina a minha morada. Segredos tão pequenos meus... Só meus. Disso, e pela primeira vez numa terapia, cheguei à conclusão que convivo com duas personalidades distintas (Arnaldo e Mike) e só poderão se adaptar a uma persona quando ficar realmente sozinho – longe desse magnetismo familiar.

Tinha premeditado (e meu pessimismo crônico desejava) que 2009 terminaria logo após o show do Radiohead em março. E foi mais ou menos o que aconteceu se não fosse a necessidade da sobrevivência em meio a continuidade que se arrastaria.
Os shows foram o que eu poderia resumir como uma experiência religiosa, cheia de catarse. Ok, sem exageros: uma experiência realmente única. Para o primeiro show viajei para o Rio de Janeiro com um amigo e amei a cidade, ou o centro dela para ser mais especifico. Três dias foi muito pouco para tentar sentir tudo que aquele caldeirão no inferno pode significar. Desde seu passado sórdido a seu presente de guerrilhas e violência incessantes. Nos shows, overdose de emoções: “havia momentos que eu queria que tudo terminasse, porque não agüentava mais me emocionar” – palavras de um amigo para me ajudar a nos expressar durante o segundo show, em São Paulo. A série poderia terminar aí (no fundo terminou), mas ainda tinha nove meses pela frente, eu estava desempregado e tinha um curso para terminar de pagar. Depois de algumas tentativas frustrantes encontrei um emprego fixo que por incrível que pareça não me entedia (e obviamente, não me satisfaz por completo) e consegui me formar.

Perto do final do ano, a casa caiu de novo: três personagens essenciais da série saíram como regulares para (re)começaram uma vida nova, com aparentes melhores oportunidades num cenário novo, coadjuvantes diferentes, num núcleo a parte de onde estávamos acostumados. O spin-off pegou a todos de surpresa e por algum tempo eu não conseguia entender por completo o afastamento do meu melhor amigo e questionava sua futura ausência torcendo que ele voltasse a trás da decisão de forma egoísta (não estava mentindo para mim mesmo) como se eu torcesse para seu fracasso e infelicidade, para ao menos estar ao meu lado quando EU precisasse.
Até que num sonho ele me disse que ia ser “poeta sem nota fiscal” e me dei conta, passando mais tempo com ele, que ele sempre foi (e vai ser) um estrangeiro em qualquer lugar que ficasse. Essa nova percepção me fez entende-lo melhor, estávamos juntos por algo insuperável, uma sombra de acontecimentos importantes. E nessa sombra nos destacávamos.

Muitas pontas soltas a serem coletadas ainda nos esperam (a todos nós). Pensei em como resumir o ano assim como fazia nas season finales anteriores, mas não consigo chegar a uma conclusão que faça sentido. Mas amo muito isso: foi um ano sem sentido aparente, onde adaptei lucidez com loucura, insanidade com racionalidade, vícios com princípios, pessoas, lugares, cheiros, sabores, sensações, e antes que eu começasse a dançar, senti as folhas de relva crescerem sob meus pés, se transformando em algo único, e tudo dentro dessa cidade de noites quentes e escarlates, onde tudo é permitido e nada é verdadeiro.

To be continued...

27.2.09

Some like it hot



Tem momentos em certos seriados que as coisas precisam esquentar para subir o ibope. Ultimamente tenho pensando muito numa teoria louca e longe de qualquer validade de que somos o que assistimos (volto nela em outro post). E se ao meu redor é um seriado, brincadeira claro, o nome dele é Season Finale.

Para o meu personagem, o ano passado foi tão down, que esse ano resolveram mudar. Essa temporada está incrível! Emprego novo, novas experiências, pessoas novas e interessantíssimas no meu núcleo, muita coisa boa. O personagem está seguindo uma tendência de otimismo (ahn?), sentindo coisas novas, aprendendo muito com o que se passa ao seu redor, está mais crítico, racional e verdadeiro.

E como ele reagiria se algo fortemente RUIM acontecesse exatamente agora, nesse começo de temporada? Como ele reagiria tendo aprendido e vivido bem mais em dois meses de show do que uma temporada tão fraca como foi a temporada passada? Como ele vai receber nos próximos episódios essa fase que muda COMPLETAMENTE toda a vida de um personagem?

To be continued...

P.S.: E não é a morte de alguém querido.

23.12.08

Season Finale II

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Do meio do ano pra cá coloquei na minha cabeça que esse foi o ano da dor. Foi o ano em que eu percebi que a única coisa que não tem oposto é a dor. A dor é concreta porque todos sentimos. A dor é um sentimento? A dor é um sentimento físico. Então também posso afirmar que foi um ano repleto de sentimentos, doloridos ou não. Minhas dores começaram onde me sentia mais livre: minha mente. E se alastraram pelos lugares ao meu redor: escola, trabalho e casa, principalmente casa.

No trabalho minha insatisfação, tédio e claustrofobia pela rotina foram brevemente esquecidas por uma paixonite aguda que se somou com um término de medicamentos resultando numa equação de desespero. Adicione uma vida acadêmica sem futuro e uma família tão solitária que me fazia não ter uma visão digna de mim mesmo e do que estava construindo para mim, me fazendo ser. Ser. E foi. A dor física apareceu logo depois, tive alucinações febris encantadoras que me fizeram perceber toda a interessante filosofia da dor.

Não acredito em inferno astral, mas se existisse certamente acabou no dia do meu aniversario, logo pela manhã aconteceu algo que nunca vou esquecer: abraçando minha vó que não lembrava mais da data do meu nascimento, a abracei e chorei tudo que não chorei nesses meses de desespero e dor.

Desse momento em diante, minha vida acadêmica mudou para melhor e não tive tempo de pensar em outras coisas como por exemplo me sentir infeliz. Mas claro, sempre sobrava um tempinho. Em alguns meses aprendi mais do que aprendera nos últimos 2 anos. Fica aqui meu eterno agradecimento pelo mestre.

A situação em casa piora a cada dia que passa e infelizmente sei quando vai terminar porém ironicamente não quero que termine dessa forma, mas é a única forma que pode terminar e vai terminar para todos. A única certeza da vida.

Entregue os trabalhos da escola comecei a desejar feliz ano novo para todos em novembro, pensando que era só esperar um mês e pular de ano facilmente. Mas não. Muita coisa aconteceu nesse mês que acaba agora junto com essa temporada. Voltando das férias, me demitiram. Voltei para casa tomando sorvete, caminhando e cantando junto com uma música. O alívio foi grande e vou deixar para me preocupar (se preocupar) depois de março, depois do show da minha vida.

Nesses últimos 30 dias o empirismo reinou sobre mim. Experências valiosas foram feitas, momentos foram eternizados e aprendi muito mais sobre o que eu sou, como sou e como ajo. Mas ainda não é amor a primeira vista.

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