Incapacidade. Incompetência. Inércia. Incompleto.
Sinto minha vida sem mim.
O frio no esôfago é diário.
Ele sobe pelo meu pescoço, agarra minha respiração e sufoca o que eu gostaria de fazer. Qualquer coisa. Não há moção, vontade, emoção. Não há nada neste tudo borbulhante. O frio do esôfago cristaliza-se em olhos marejados. A tristeza bate como uma onda avança numa rocha fincada nas areias do tempo.
Uma rocha como eu.
Uma rocha inerte. Desfazendo-se aos poucos pela erosão que a água traz.
Incapaz. Incompetente. Sem valia. Inerte. Incompleto. Rodeado sem saída.
Só o empirismo e a necessidade salvam! Adaptação. Sempre.
28.9.21
Erosão
31.12.20
Season Finale XIV
Como sabemos que o fim chegou?
É o aviso de uma doença terminal? Quanto tempo temos?
Essa é a beleza do fim. Sua surpresa. Vêm sem aviso. "O começo do fim". Isso não existe.
Se na temporada anterior eu saí de uma caverna escura e claustrofóbica para perder a conta de quantas estrelas existem e existiram, neste ano eu fitei o infinito - em sua beleza cósmica.
O infinito finito. Não temos noção de sua grandeza, seu fim, seu começo. Que belo paradoxo. Mas sabemos que terá um fim pois a expansão termina assim. Mas não estaremos aqui. Nem eu, nem você, nenhum ser humano. Um final sem testemunhas. Como é hoje. Sabemos apenas do fim. Que ele vem. De resto, nada sabemos. Escuridão e nada. Universo. Espaço. Sem calor, sem energia. Sem testemunhas. Portanto, já estamos finalizados. Já estamos no fim. Cada um em seu particular derradeiro último suspiro sem aviso.
Foi uma temporada de muitos fins - cada indivíduo experimentando o seu próprio de alguma forma. Com surpresa e sem aviso, muitos terminaram. E eu, novamente, na companhia de um final. Uma amizade que agora só existe comigo e de quem permanece como testemunha. Evaporando de existência à lembrança em questão de segundos. O tempo necessário para finalizar. É assim que termina? Foi assim que terminou.
Eu sei que terminou. Mas ao mesmo tempo, reluto e duvido. Ainda nos imagino tomando um café charmoso na entrada de um museu. Compartilhando momentos e registrando-os em RGB. Depois você me pediria este registro em preto e branco. Eu gostaria que você estivesse por aqui. Gostaria de contar com sua presença a uma mensagem em áudio de distância.
Ficaram as lembranças, a memória, os aprendizados e as outras amizades que conectamos durante um breve espaço de tempo. Nossas coleções compartilhadas, nossos laços invisíveis, nossas risadas descontroladas, nossas autodestruições, nossos venenos, nossos pensamentos freaks, mas com amor. Sempre com amor. O seu amor, terminou. Eu sei que terminou. Mas o meu amor por você estará comigo até o meu fim.
Não foi uma temporada com finais apenas. Um começo novo foi fundamental. Um novo amor compartilhado. Leve e intenso. Divertido, despretensioso. Novos sorrisos.
E eu me renovei. E de novo, voltando a mim mesmo. E de novo, estava perto de mim, só eu não enxergava. Dessas coisas irônicas da vida. Uma parte de mim, aquela esquecida, se renovou. Outras, claro, se mantêm firmes. O objetivo continua o mesmo – não fazer mal a ninguém. O sonho de ter uma alma livre de apegos desnecessários também. O foco, a caridade e o aprendizado. Contudo, o desejo agora é estar dentro de um abraço. O sentimento se renovou de tal forma, que a leveza é insustentável.
Continua…
31.12.19
Season Finale XIII
Quantas estrelas se apagaram nos últimos 10 anos? Quantas estrelas se apagaram desde que olhei o céu pela última vez?
Há 10 anos entrei numa caverna. Convivi com monstros e fantasmas só para depois de muito tempo perceber que eram reflexos infinitos de uma solidão que não parecia ter fim. Pois então, estava sozinho nesta caverna. E a cada temporada que passava, mais eu me aprofundava no labirinto que eu mesmo criei. Nem lembrava mais da existência das estrelas. Apenas fitava o teto rochoso e escuro que me observava também.
E nos últimos 2 anos perdi um pedaço da vida. Não da minha própria, mas de alguém que sempre esteve do lado de fora. E foi preciso essa perda para eu perceber que eu realmente tinha perdido muito mais que um pedaço. Finalmente estava desaparecendo por completo.
E comecei a derreter. Gota a gota a caverna foi se completando. Soterrado em mim mesmo, sem fôlego e sem forças, fechei meus olhos e quando abri já não estava mais na caverna. A saída sem saída não se revelou com luz ou mensagens para seguir adiante. Eu agora estava num quarto escuro. No breu, tateando por um caminho desconhecido sem saber o que era chão, degrau, parede, eu avançava sem parar. Guiado apenas pelas batidas do meu coração.
Queria experimentar e conhecer.
E conheci. Conheci você, que me quis como eu sou. Mas sou incrédulo e sonhador. Depois te desconheci. Na esperança, o gostar reduz. Na frustração, o gostar acaba. E você se foi. E a saída da caverna é lenta. Nada ainda.
Eu sou o meu outro. Sou meu reflexo. Existo a partir das minhas experiências. Parece que existe algo que pode se desdobrar em minha mente. Que ainda pode me marcar. Mais profundamente. Basta existir para ser completo.
E finalmente a saída. E o lado de fora era algo que eu só ouvia pela boca dos outros e não acreditava. Eu era o lado de fora. Saí em mim mesmo. Um dentro do outro, do lado de fora. As possibilidades são infinitas e finalmente vivo o meu empirismo, meu hedonismo e minha adaptação. Um lobo selvagem avançou para cima de mim, se transformou em energia azul e entrou no meu peito. A forma como me enxergo é o jeito como também olho pro mundo.
Um vento fraco se transforma em ventania e assume a forma de uma tempestade à luz fraca e quieta durante um milagre perfeito. A minha realidade com um sabor que parece mel. E ao mesmo tempo que dura um nada eterno, eu sinto os toques, os cheiros, os sabores, os sentidos de uma dança rápida e lenta de alguém que conhecia e dos alguéns que vou conhecer. Se da primeira vez eu senti demais, da segunda, espero sentir o dobro. Sentir como eu sou. Um grande delírio sem a necessidade de febre, uma dança sem coreografia e sem protocolos.
Enquanto o mundo pega fogo lá fora, eu por dentro sou o coro dos pássaros ao amanhecer deslumbrado com a quantidade de estrelas que ainda existem e maravilhado pela luz das que se foram.
Continua...
2.12.19
A Você
12.8.19
Chlamydia trachomatis
Todos continuavam a trabalhar normalmente. Somente ele sentia-se incomodado pela luz. Seu olho esquerdo começou a coçar loucamente. Derrubou seus óculos de grau e foi cambaleando para o banheiro masculino. O cheiro de lavanda com fezes infestam o local abafado e também sem janelas. A luz acendeu com seu movimento. Apoiou na pia, abriu a torneira, juntou a água com as mãos e lavou o rosto. Seu olho esquerdo ardia e coçava. Um colega saiu do cubículo e deixou o banheiro sem lavar as mãos. Imaginou toda a jornada das mãos do colega até ele chegar em casa. Ele ia tossir e cobrir a boca com elas. Ia usar a tela do celular com aqueles dedos não lavados. Ia apertar a mão do visitante antes da reunião. Ia segurar no corrimão do ônibus com as mãos não lavadas. Ia abrir a maçaneta da porta de casa. Ia afagar o pescoço da esposa com as mãos sujas. Não sujas visivelmente, mas sujas o suficiente nas profundezas. Ia fazer um cafuné na cabeça do filho e na cabeça do cachorro, que depois lambiria tudo. Até tomar banho e se lavar. Mas daí o estrago já estava feito. Estavam todos contaminados. Pensou se não foi o colega que o deixou assim, mas não. Ele sentava longe e não se cumprimentavam. Estava menos abalado pelas luzes, menos tonto, mas com a coceira no olho esquerdo. Encarou o espelho, abriu as pálpebras com os dedos e o branco do olho estava vermelho. As veias tentavam furiosamente chegar à íris esverdeada. Imaginou o que seria. Conjuntivite? Dois amigos estava assim na semana passada. Achou possível. Mas não explicava o clarão repentino. Nem a tontura. Lavou novamente o rosto, enxugou com aquele papel vagabundo que não seca nada e voltou ao seu lugar. A tela ainda ardia sua visão.
Pegou suas coisas e resolveu ir embora. "Não estou bem, trabalho de casa", digitou para sua chefe. A rua estava quente e abafada e sol mais claro que o normal. "Será se fico cego como no livro do Saramago?" pensou rindo de nervoso. Foi devagar até o ponto de ônibus. Coçava o olho esquerdo com força. "Quando vier o 7600 me avisa por favor?" pediu para uma senhora. "Claro, é o mesmo que o meu", ela respondeu. "Obrigado". Algum tempo depois o ônibus chegou e ele entrou. Lembrou dos corrimãos cheio de germes de mais das milhares de pessoas que não lavam a mão ao sair do banheiro e tentou não segurar em nada. Achou um assento vazio e seguiu a viagem sem deixar de coçar o olho esquerdo. E coçava e coçava. Olhou para sua mão que já estava com pequenas manchas de sangue. Assustado, tirou o celular do bolso, ligou a câmera frontal e fingindo um selfie, viu no reflexo o vermelhidão do seu olho esquerdo. Um pequeno borrão vermelho de sangue rasgava seu olho como uma maquiagem destruída pelas lágrimas e secada pelo vento. Sacou um Kleenex da mochila e pressionou no olho esquerdo. Ainda coçava muito, mas não queria piorar a situação. Da visão do seu olho direito vinha apenas o clarão. O dia mais claro que já viu. Reservados, nenhum passageiro o encarava. Seu Kleenex começa a encharcar. Desceu e acelerou o passo indo para casa. "Boa tard..." Nem respondeu de volta ao porteiro e abriu a porta do elevador rapidamente. Encarou o espelho. Com muito do que veria retirou o Kleenex do olho esquerdo. O horror. Seu olho esquerdo parecia um ovo quebrado. Mas sem as cascas. Tudo misturado. Gema e clara em íris e esclera. O vermelho sangue com o amarelo. As veias vulcânicas pulsando. Sentia o olho esquerdo quente. Fechou o direito e abriu as pálpebras do esquerdo. Estava tudo vermelho. Sua pressão começou a baixar assim que o elevador parou em seu andar. Tremendo, abriu a porta, fechou a porta com um estrondo e logo sentou-se no sofá. Seu gato chegou de mansinho. Não se assustou com o barulho da porta. Subiu em seu colo de um só pulo e o encarou. Seus olhos brilhavam intensamente. Mais bonitos que de costume. O gato encarava somente o olho esquerdo. O globo avermelhado. O ovo estourado. O pulsante vermelhidão. O núcleo de fogo. O Deus Sol. O gato lhe apalpou a perna esquerda agitada e inquieta e ele parou. Ficou imóvel, estupefato mirando o gato. O gato. Sua companhia solitária. Olhou para ele misteriosamente, abriu a boca revelando seus dentes afiados e disse com uma voz calma, grossa e reconfortante:
"Para os outros, o universo parece honesto. Parece honesto para as pessoas de bem porque elas têm os olhos castrados. É por isso que temem a obscenidade. Não sentem nenhuma angústia ao ouvir o canto do galo ou ao descobrirem o céu estrelado. Em geral, apreciam os "prazeres da carne" na condição de que sejam insossos.
Mas, desde então, não havia mais dúvidas: eu não gostava daquilo a que se chama "os prazeres da carne" justamente por serem insossos. Gostava de tudo o que era tido por "sujo". Não ficava satisfeito, muito pelo contrário, com a devassidão habitual, porque ela só contamina a devassidão e, afinal de contas, deixa intacta uma essência elevada e perfeitamente pura. A devassidão que eu conheço não suja apenas o meu corpo e os meus pensamentos, mas tudo o que imagino em sua presença e, sobretudo, o universo inteiro."
O gato pulou para fora do seu colo, pousou no chão elegantemente, ergueu o rabo e entrou na cozinha. Ele abriu lentamente os olhos e tudo estava em preto e branco. Olhou para a janela à sua esquerda e enxergou luzinhas amarelas. "Ufa, só está de noite", pensou aliviado e veio uma frase qualquer em sua mente: "a noite é o dia em preto e branco". Riu, levou a mão para o olho esquerdo e ele estava seco. Foi ao banheiro, acendeu a luz, encarou o espelho e seu olho esquerdo estava normal. Normal. Assim como o olho direito. Abriu as pálpebras dos dois olhos ao mesmo tempo e nenhum vermelhidão. Nenhuma coceira. Somente os borrões de sangue. A vista estava cansada. Pesada. Deitou a cabeça em seu travesseiro. Encontrou-se relaxado. E agora que ele encontrou, sumiu. Agora que ele sente, não sente mais.

15.6.19
Sentido
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